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domingo, 5 de outubro de 2014

A IMAGEM DE DEUS

[John Stott]

Criou Deus o homem à sua imagem,
 à imagem de Deus o criou (Gn 1.27)



O clímax da atividade criativa de Deus foi o aparecimento dos seres humanos, e a forma como o Gênesis expressa este clímax é descrevendo-os como tendo sido criados “à imagem de Deus”. Porém, os estudiosos não conseguem chegar a um consenso em relação ao significado da imagem divina nos seres humanos.

Alguns consideram que ela significa que os seres humanos são representantes de Deus, exercendo domínio sobre o restante da criação em seu lugar. Outros concluem que a imagem de Deus se refere ao relacionamento especial estabelecido entre Deus e os homens. Mas, se observarmos esta expressão tanto no contexto imediato de Gênesis quanto na perspectiva mais abrangente das Escrituras, parece ficar claro que ela se refere a todas aquelas qualidades ou capacidades humanas que nos diferenciam dos animais e nos aproximam de Deus. Quais são essas qualidades?

A primeira delas é que, como seres humanos, somos racionais e temos consciência de nós mesmos. A segunda é que somos seres morais; temos uma consciência que nos conclama a fazer o que percebemos como certo. A terceira é que somos criativos, tal como o nosso Criador, capazes de apreciar aquilo que é belo aos ouvidos e aos olhos. A quarta é que somos seres sociais, capazes de estabelecer com outras pessoas relacionamentos verdadeiros de amor, pois Deus é amor e, ao nos fazer à sua imagem, ele nos deu a capacidade de amá-lo e de amar aos outros. Por último, temos uma capacidade espiritual que nos faz sentir fome de Deus. Assim, somos os únicos seres capazes de pensar, escolher, criar, amar e adorar.

Infelizmente, precisamos acrescentar que a imagem de Deus em nós foi desfigurada, do mesmo modo que nossa humanidade foi contaminada pelo egocentrismo. A imagem de Deus, no entanto, não foi destruída. Pelo contrário, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento afirmam que os seres humanos ainda carregam em si a imagem de Deus e por essa razão devemos respeitá-los. O caráter sagrado da vida humana se origina do valor que decorre da imagem de Deus (9.6). Os seres humanos são seres parecidos com Deus. Eles merecem ser amados e servidos.

Para saber mais: Tiago 3.7-12

Fonte: John Stott – A Bíblia Toda, O Ano Todo.
Www.entretextosteologicos.blogspot.com


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Amor e ira

[John Stott]



Na verdade, o homem é, ao mesmo tempo, objeto do amor e da ira de Deus. O Deus que condena o homem por sua desobediência já planejou a maneira para justificá-lo. Três versículos no primeiro capítulo de de Romanos resumem essa verdade. O apóstolo Paulo escreve: “O evangelho... é o poder de Deus para a salvação... Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus [isto é, a maneira de Deus fazer que os pecadores se ajustem a ele]... Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens...” (Rm 1.16-18). Não se explica exatamente como a ira de Deus está sendo revelada do céu contra o pecado; provavelmente, Paulo se refere ao processo amedrontador da deterioração moral que trabalha em pecadores obstinados a quem Deus abandonou à própria obstinação, algo que ele descreve no fim do capítulo. Mas, se a ira de Deus é vista na corrupção do homem e da sociedade, seu remédio para o pecado é visto no evangelho. Há, portanto, duas revelações de Deus. Sua justiça (ou o caminho para a salvação) é revelada no evangelho, porque sua ira é revelada do céu contra toda injustiça. O Deus da Bíblia, assim, é um Deus de amor e de ira, de misericórdia e de julgamento. E toda a inquietude, busca de prazer e escapismo que marcam a vida do homem em todas as épocas e no mundo todo são sintomas da alienação que decorre do castigo divino.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lei e Evangelho


[John Stott]

Depois que Deus fez a promessa a Abraão, ele deu a Lei a Moisés. Por quê? Simplesmente porque ele tinha de fazer as coisas piorarem antes que pudesse melhorá-las. A Lei expôs o pecado, afrontou o pecado e o condenou. O propósito da Lei era, por assim dizer, tirar a tampa da respeitabilidade do homem e expor o que ele realmente é abaixo da superfície – pecador, rebelde, culpado, sob julgamento de Deus e sem esperança para salvar-se a si mesmo.

Hoje, deve-se permitir que a Lei faça a tarefa que Deus lhe confiou. Uma das grandes falhas da Igreja contemporânea é a tendência de abrandar o pecado e o julgamento. De maneira semelhante aos falsos profetas, nós tratamos da ferida do povo de Deus “... como se não fosse grave” (Jr 6.14; 8.11). Veja como Dietrich Bonhoeffer expõe essa ideia: “É apenas quando alguém se submete à Lei que ele pode falar de graça... Não acho que seja cristão querer chegar ao NT de forma muito rápida e direta.” Jamais devemos ignorar a a Lei e ir direto ao evangelho. Fazer isso é contradizer o plano de Deus na história bíblica.

Essa não é a razão pela qual o evangelho não é apreciado hoje em dia? Alguns o ignoram, outros o ridicularizam. Então, em nosso evangelismo moderno, jogamos pérolas aos porcos (e a pérola mais cara é o evangelho). As pessoas não conseguem ver a beleza da pérola, porque não tem o conceito da imundícia do chiqueiro. Nenhum homem aceita o evangelho antes que a Lei, primeiro, revele a esse homem sua própria natureza e essência. É apenas na escuridão profunda do céu noturno que as estrelas começam a aparecer, bem como também é apenas no pano escuro do pecado e do julgamento que o evangelho brilha.

Não admitimos nossa necessidade de abraçar o evangelho, para que este cure nossas feridas, antes de a Lei nos ter injuriado e derrotado. Jamais ansiaremos para que Cristo nos liberte antes de a Lei nos prender e aprisionar. Jamais buscaremos Cristo para ser justificados e viver, antes de a Lei nos condenar e matar. Jamais acreditaremos em Jesus, antes de a Lei nos levar ao desespero. Jamais nos voltaremos para o evangelho, para que este nos leve ao céu, antes de a Lei nos rebaixar até o inferno.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O mediador de Deus



[John Stott]

Instintivamente, sabemos que não podemos enquadrar Deus em nenhuma estrutura conceitual concebida por nós mesmos. Se achamos que fomos bem-sucedidos nessa tarefa, o que temos em nosso enquadramento não é Deus. Nossa mente não pode concebê-lo e, muito menos contê-lo. “Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos”, declara o Senhor. “Assim como os céus são mais altos do que os seus caminhos, os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos” (Is 55:8,9).

Até mesmo os rápidos lampejos dele, quando ele passa por nós nos momentos de êxtase ou de dor, de beleza ou de maravilhamento, de bondade ou de amor, deixam-nos totalmente atordoados pela completude dessa realidade que está além de nós. Ainda assim, esses lampejos são em si mesmos uma forma de “mediação”. Pois eles são declarações de Deus por intermédio das glórias do céu e da terra, dos intrincados mecanismos da natureza, das complexidades da situação humana em sua mescla de nobreza e degradação, e de toda abrangência de nossas respostas a isso. Essas “mediações”, no entanto, nos deixam insatisfeitos. Elas apontam para alturas que não podemos alcançar, profundidades que não podemos sondar. Precisamos de uma mediação que seja, de imediato, mais palpável, mais pessoal e mais genuinamente humana. Em uma palavra: precisamos de Jesus Cristo. Pois, por mais rica que seja a realidade que já tenhamos visto, sentido, concebido ou suspeitado, separada de Jesus Cristo, Deus permanece infinitamente distante. Apenas uma vez essa vida veio pessoalmente estar em nosso meio, quando a Palavra de Deus realmente tornou-se um ser humano e viveu entre nós. Só naquele momento os olhos humanos puderam contemplar a “glória” verdadeira em forma humana, o esplendor da realidade pessoal suprema, “... glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Justificação - a penalidade paga


[por John Stott]

A única forma de ser justificado do pecado é o salário do pecado ser pago, ou pelo pecador ou pelo substituto apontado por Deus. Não há forma de escapar, pois a penalidade tem de ser paga. Como um homem, condenado por um crime e sentenciado a um período de encarceramento, pode ser justificado? Apenas cumprindo a sentença de seu crime, na cadeia. Assim que ele pagar sua pena, poderá deixar a prisão como um homem justificado. Ele não precisará mais temer a polícia nem os magistrados, pois as exigências da lei foram satisfeitas. Ele foi justificado de seu pecado.

O mesmo princípio é válido se a penalidade for a morte. Não há forma de justificação, exceto o pagamento da penalidade. Você pode responder que, nesse caso, pagar a penalidade não é, de forma alguma, um meio de escape. E você estaria certo, se estivesse falando da pena de morte aqui na terra. Uma vez que um assassino é executado (em países em que a pena de morte ainda é aceita), sua vida na terra termina. Ele não pode viver novamente na terra como um homem justificado, da mesma forma que uma pessoa que cumpriu sua pena na prisão poderia. Mas a coisa maravilhosa sobre a justificação cristã é que nossa morte foi seguida pela ressurreição, na qual podemos viver a vida de uma pessoa justificada, por termos pagado a pena de morte (em Cristo e por meio dele) por nosso pecado.

Para nós, portanto, é assim. Merecíamos morrer por nossos pecados. E, de fato, morremos, embora não em nossa própria pessoa, mas na pessoa de Jesus Cristo, nosso substituto, que morreu em nosso lugar e com quem fomo unidos pela fé e pelo batismo. E, por meio dessa união com esse mesmo Cristo, ressuscitamos. Assim, a antiga vida de pecado termina, pois nós morremos para ele, e a nova vida dos pecadores justificados se inicia. Nossa morte e ressurreição com Cristo tornam o voltar atrás inconcebível para nós. É nesse sentido que nosso “eu” pecador foi despojado de poder, e fomos libertos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A visão divina


[John Stott]

A visão que precisamos ter é a de Deus, o Deus de toda a revelação bíblica; o Deus da Criação, que fez todas as coisas agradáveis e boas e que fez o homem e a mulher à sua imagem para subjugar o mundo; o Deus da aliança da graça, que, apesar da rebelião humana, está chamando pessoas para si mesmo; o Deus de compaixão e justiça, que odeia a opressão e ama o oprimido; o Deus da encarnação, que se fez fraco, pequeno, limitado e vulnerável e que participou de nossa dor e alienação; o Deus da ressurreição, ascensão e Pentecoste, e, portanto, do poder e autoridade universais; o Deus da Igreja ou da comunidade do Reino, com a qual ele se comprometeu para sempre; o Deus da História, que trabalha de acordo com um plano em direção à conclusão; o Deus do eschaton, que um dia fará novas todas as coisas.

Aqui não há espaço para o pessimismo, tampouco para a apatia. Há lugar apenas para a adoração, para a fé que permanece na expectativa e para a obediência prática em testemunho e serviço. Pois, uma vez que tenhamos visto a glória de nosso Deus e a grandeza de sua comissão, podemos apenas responder: “Não fui desobediente à visão celestial”.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Praticando a Palavra de Deus


"Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos." [Tiago 1.22]

Logo no primeiro capítulo da carta de Tiago somos impactados por três advertências contra o engano (v. 16, 22, 26). O antídoto de Tiago contra o engano é a Palavra de Deus ou “palavra da verdade” (v. 18), isto é, a revelação que Deus nos deu em Cristo e através do testemunho bíblico acerca de Cristo. Se prestarmos atenção à Palavra de Deus evitaremos a tragédia de sermos enganados. Nossa resposta à Palavra deve se dar em duas etapas.
Primeiro, ouvir atentamente o que a Palavra está dizendo. “Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar” (v. 19). Nossa tendência natural em todas as situações é responder precipitadamente. Expressamos de imediato nossa opinião, esquecendo-nos de que “a boca dos tolos derrama insensatez” (Pv 15.2). Quase sempre, a última coisa que fazemos (e que deveria ser a primeira) é fechar a boca e escutar. É melhor escutar do que falar — este certamente é um princípio geral de ampla aplicação. Ouvir com atenção é a chave para um relacionamento harmonioso, e isso ainda é mais verdadeiro quando se trata do nosso relacionamento com Deus, pois ele nos exorta a ouvirmos a sua voz. Às vezes, porém, ouvimos apenas aquilo que queremos ouvir das Escrituras — os ruídos que ecoam dos nossos preconceitos culturais — e não percebemos o trovejar de sua Palavra desafiando-nos a ouvi-la.
Segundo, agir de acordo com a Palavra de Deus. A metáfora do espelho empregada por Tiago é bastante reveladora (v. 22-23), pois o espelho nos transmite duas informações: ele nos diz como somos e, ao mesmo tempo, como devemos ser. O espelho diz: “Você está com uma mancha de lama no lado direito do rosto”, mas além de revelar a sujeira em meu rosto, ele também me diz que é melhor retirá-la. Sempre que nos olhamos no espelho devemos agir de acordo com aquilo que vemos. Semelhantemente, se contemplarmos atentamente o espelho da Palavra de Deus, ela nos dirá não somente como somos, mas também como devemos ser.
A Palavra de Deus deve ser ouvida, aceita e obedecida. Enquanto isso não acontece, não há verdadeiro discipulado.

Retirado de A Bíblia Toda, o Ano Todo [John Stott].  Editora Ultimato
Fonte: www.ultimato.com.br

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Seis aspectos do evangelho são dignos de nota



[por John Stott]

1 Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. 2 Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão. 3 Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, 4 E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. 5 E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. (1 Coríntios 15:1-5)

1.     O evangelho é cristológico. O centro da mensagem cristã é que "Cristo morreu pelos nossos pecados...[e] ressuscitou ao terceiro dia". 0 evangelho não está limitado a estes acontecimentos, mas eles são sua verdade prioritária, a primeira coisa que ele recebeu e que tem o cuidado de transmitir (versículo 3). 0 evangelho não pode ser pregado se Cristo não for pregado, e o Cristo autêntico não é proclamado se sua morte e ressurreição não forem centrais.

2.     O evangelho é bíblico. O Cristo que Paulo proclamava era o Cristo bíblico, que morreu por nossos pecados "segundo as Escrituras" (versículo 3). Que "Escrituras" do Antigo Testamento Paulo tinha em mente, isso ele não diz aqui, mas, sem dúvida, elas teriam incluído aquelas que Jesus usou quando "explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras" (Lc 2425-27; 44-46), as que Pedro usou no dia de Pentecostes (At 2.25-31), e notadamente o Salmo 22 e Isaías 53. Para os primeiros evangelistas cristãos, era de suma importância o fato de que a morte e a ressurreição de Jesus foram confirmadas por duas testemunhas: os profetas e os apóstolos ou, como diríamos, o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

3.     O evangelho é histórico. Precisamos notar as referências, tanto ao sepultamento de Jesus como às suas aparições, pois o sepultamento atestava a realidade da sua morte (já que enterramos os mortos, não os vivos), enquanto que as aparições testificavam da realidade da sua ressurreição. Além do mais, o que re-surgiu é aquilo que foi escondido, enterrado. Em outras palavras, o que foi ressuscitado e transformado foi o corpo de Cristo. Além disso, a ressurreição é um evento histórico possível de ser datado, uma vez que ela ocorreu "no terceiro dia".

4.     O evangelho é teológico. A morte e a ressurreição de Jesus não foram apenas acontecimentos históricos; elas têm um significado teológico ou resgatador. Ele não apenas morreu, mas "morreu pelos nossos pecados". Como pecado e morte estão relacionados um com o outro no decorrer das Escrituras como sendo uma ofensa e sua devida recompensa, e como Jesus mesmo não cometeu pecado algum pelo qual necessitasse morrer, ele deve ter morrido por nossos pecados. Os pecados eram nossos, mas a morte foi dele. Ele morreu a nossa morte. Ele sofreu nosso castigo. Só assim poderíamos "ser salvos" (versículo 2). Isso aponta claramente para a natureza substitutiva da cruz.

5.     O evangelho é apostólico. Isso significa que é uma parte essencial da mensagem autêntica recebida e transmitida pelos apóstolos. Faz parte da tradição apostólica. No versículo 11 [1Co 15] Paulo conclui: "Portanto, quer tenha sido eu, quer tenham sido eles, é isto que pregamos, e é isto que vocês creram". Esse amontoado de pronomes pessoais (eu, eles, nós, vocês) é deveras impressionante. Indica uma unidade de fé entre Paulo e os Doze, e entre os apóstolos e a igreja, até mesmo entre a primeira geração de crentes e todas as subsequentes.

6.     O evangelho é pessoal. Isto é, a morte e a ressurreição de Jesus não são apenas história e teologia, mas são o caminho da salvação individual. Os coríntios o receberam, decidiram-se por ele e foram salvos por ele, conquanto se mantivessem firmemente apegados a ele (versículos 1-2).

Fonte: John Stott – A Verdade do Evangelho.
publicado em http://entretextosteologicos.blogspot.com.br