quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Teologia e Pedagogia


por Rousas J. Rushdoony

Para uma filosofia da educação cristã, é básico que o ensino esteja baseado em uma sã teologia e doutrina bíblica do homem. Sendo Cristo o Senhor, o homem não pode sê-lo. A soberania de Deus exclui a soberania do homem. A soberania de Deus significa que nossos critérios educacionais devem derivar da Escritura, não do homem.

Isto significa, primeiro, que em razão de a Escritura deixar claro que o homem é uma criatura caída vivendo em um mundo caído, a educação deve tratar com o fato do pecado. A educação não é evangelismo: é instrução. Em todas as áreas da instrução, as pressuposições se extraem da Escritura, não do homem. Deste modo, na biologia, a base para a teoria da evolução não está na informação biológica, mas no esforço do homem para eliminar Deus do universo. De modo que o que atrai na teoria é religioso, não científico; não explica de maneira satisfatória nada com respeito ao universo, porém satisfaz a hostilidade do humanista para com Deus. Uma filosofia cristã da educação reconhecerá as pressuposições da educação não cristã e se concentrará em desenvolver pressuposições bíblicas como a única base sólida para uma resposta e perspectiva cristãs. Em outras palavras, os homens pensam e agem em termos do que creem; a fé governa a vida, e as pressuposições determinam nossas ciências, artes e filosofia.

Segundo: Isto significa, como se indicou, que existe uma relação necessária entre a fé e o conhecimento. O que sabemos é produto do que cremos. O progresso das ciências no ocidente cristão não é uma casualidade. Somente é possível ciência onde existe a fé em um Deus cujo conselho de predestinação introduz uma lei e uma ordem totais no universo. O relativismo faz com que a ciência seja finalmente impossível; o mesmo sucede com o politeísmo: não pode existir nenhum universo, apenas um 'multiverso' que não tem nenhuma verdade nem significado comum.

Terceiro: Ao ensinar é importante ver, portanto, a unidade do ser do homem. Ele é totalmente uma criatura de Deus, e é uma unidade de fé e ação. A Bíblia fala do coração ou alma do homem como o centro de seu ser, como o núcleo de sua consciência, autoconhecimento e pensamento. Dele emanam os caminhos da vida (PV. 4:23), quer sejam bons ou maus.

O paganismo sustenta uma visão dualista do homem, e algumas vezes, uma visão tripartida. No pensamento grego a mente e o corpo do homem eram duas substâncias distintas e, portanto, alheias uma da outra. Assim, a virtude podia restringir-se a uma esfera. Sócrates poderia seria considerado virtuoso mesmo se fosse homossexual. Deste modo o conflito do homem era metafísico, antes de ser moral.

Como o fundamentalismo possui uma base proveniente das visões dualista e tripartite, é fácil para ele ser antinominiano. A doutrina do “crente carnal”, uma visão extremamente perniciosa, sustenta que o homem pode ser salvo mesmo sem mostrar frutos de justiça ou do Espírito. O espírito do paganismo pode ser resumido no provérbio popular: “Não se pode julgar o coração”. Isto pressupõe que a alma e o corpo do homem são dois ambientes alheios um do outro. Porém, nosso Senhor esclarece que o homem se dá a conhecer e há de ser julgado por seus feitos, assim como uma árvore é conhecida por seus frutos (Mt. 7:16-20). Se não possuirmos uma visão unificada do homem, cairemos com facilidade não só nesta doutrina do “crente carnal” mas também no antinomismo. Este vê na Bíblia dois planos de salvação, um “progresso” do material ao espiritual, e da lei para a graça, embora na Escritura a salvação sempre seja pela graça, sendo o “material” e o “espiritual” realidades igualmente criadas por Deus, ambas caídas, e ambas redimidas, e tanto a lei como a graça são básicas ao ser e ao plano de Deus, de modo que receber a graça é deleitar-se na lei de Deus.

Quarto: Nossa perspectiva deve ser determinada pela teologia, não pela biologia. O homem é produto, não da biologia, mas da palavra criativa de Deus. Isto significa que a determinação teológica é anterior à biologia, e que o determinismo biológico não tem validez.

Assim, a perspectiva moderna encara a adolescência com sua fase tempestuosa, tensa, rebelde e pretensamente independente como realidades biologicamente determinadas e naturais para o homem. Porém, de fato, a adolescência é um produto cultural, a marca distintiva de uma cultura decadente, e é quase desconhecida na história da civilização fora da era moderna. Na maioria das culturas, o que chamamos adolescência é mais um tempo de imitação cuidadosa e atenta dos adultos e da geração mais velha. Os jovens, ingressando na vida madura e no trabalho, estão preocupados em aproximar-se cada vez mais do mundo dos adultos e serem aceitos por eles. Em lugar de rebelar-se contra a geração adulta, os jovens buscam ingressar e se iniciar no mundo dos adultos. Foi somente porque o existencialismo coroou o isolamento e a independência radical que os jovens associam a chegada da maturidade física com uma declaração de guerra e independência. Simplesmente estão representando assim o rito necessário de “confirmação” religiosa do mundo moderno. O jovem cristão é confirmado na fé de seus pais na medida em que se aproxima da maturidade; o rito de confirmação do jovem humanista é a adolescência e sua rebeldia ou existencialismo.

Da mesma forma, uma pesquisa de Edward Shorter indica que a masturbação é, em geral, um fenômeno moderno no homem1. A masturbação é cada vez mais importante na cultura moderna devido ao fato de relacionar-se com o desejo existencial do homem de ser livre de todas as demais pessoas, e deste modo reduzir o sexo a um ato puramente existencialista de uma só pessoa que não necessita de ninguém mais. Na medida em que se diminui o caráter existencialista do homem moderno, assim também sucederá com sua ênfase nos prazeres egocêntricos em todas e cada uma das esferas.

Quinto: A disciplina é fundamental para a educação cristã, porém não se deve confundi-la com castigo. A raiz do termo disciplina é discípulo, e o verdadeiro ensino faz da criança um discípulo feliz e entusiasmado de Cristo, apto para aprender porque ser capaz e estar completamente empenhado no serviço de Deus é um aspecto necessário e honroso da vida em aliança. O castigo é um recurso último, embora necessário. A verdadeira disciplina é positiva; o castigo é negativo. A disciplina estabelece metas, padrões, exigências, provas e medidas. A disciplina cria uma motivação e um relógio internos, de modo que a vida da criança se torna progressivamente uma vida disciplinada, e a disciplina se torna uma parte natural da vida da criança, e isto também de maneira permanente. A disciplina cria uma relação vital entre a fé e os hábitos, de modo que a fé do indivíduo se converte em uma fé disposta e ativa.

Sexto, a educação é, por necessidade, não somente teológica por natureza mas também teocêntrica. Centra-se em Deus porque Deus, como Senhor, requer que todas as coisas o sirvam. O Catecismo Menor de Westminster nos diz que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo eternamente”. Todas as áreas da vida e pensamento devem estar alinhadas com este propósito, e especialmente a educação. A educação humanista tem como fim glorificar o homem e capacitá-lo para que desfrute a si mesmo; isso é algo que sempre estará fadado ao fracasso. A educação cristã não pode ser educação secular com um pouquinho de Bíblia. Não se adiciona a Bíblia a um currículo pronto; a Bíblia deve estabelecer, governar e condicionar o currículo, ou não teremos uma educação cristã.

1Edward Shorter: The Making of the Modern Family, pp. 76, 98-102, 106, 114-116, 251. New York, N.Y.: Basic Books, 1975. 

Tradução: Márcio Santana Sobrinho
Fonte: The Philosophy of the Christian Curriculum, p. 162-164.
Publicado em www.monergismo.com


terça-feira, 6 de novembro de 2012

O construtor de pontes

O texto a seguir, extraído do Comentário Bíblico de Warren Wiersbe, é um excelente referencial para se trabalhar como introdução ao Evangelho de Mateus. Vale a pena lê-lo e arquivá-lo.


Boas Novas!

Cerca de vinte a trinta anos depois de Jesus ter voltado para o céu, um discípulo judeu chamado Mateus foi inspirado pelo Espírito Santo a escrever um livro. Disso resultou o que conhecemos hoje o “Evangelho segundo Mateus”.

Nenhum dos quatro evangelhos registra qualquer palavra proferida por Mateus. Ainda assim, em sue evangelho, ele nos apresenta as palavras e os atos de Jesus Cristo, o “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1:1). Apesar de Mateus não ter escrito para falar de si mesmo, convém nos familiarizarmos com o apóstolo e com o livro que escreveu. Assim, poderemos descobrir tudo o que ele desejava que soubéssemos sobre Jesus Cristo.

O Espírito Santo usou Mateus para realizar três tarefas importantes ao escrever este Evangelho.

1. O Construtor de Pontes: apresentou um novo livro
Esse novo livro é o Novo Testamento. Se um leitor da Bíblia pulasse de Malaquias para Marcos, Atos ou Romanos, ficaria totalmente confuso. O Evangelho de Mateus é a ponte de transição entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

O tema do Antigo Testamento é apresentado em Gênesis 5:1: “Este é o livro da genealogia de Adão”. O Antigo Testamento mostra a história, extremamente triste, da família de Adão. Deus criou o homem à sua imagem, mas o homem pecou e, desse modo, distorceu sua imagem original. Depois disso, o homem gerou filhos “à sua semelhança, conforme à sua imagem” (Gn 5.3), e estes se mostraram tão pecadores quanto seus pais. Não importa como lemos o Antigo Testamento, sempre encontramos pecados e pecadores.

O Novo Testamento, porém, é o “Livro da genealogia de Jesus Cristo” (Mt 1:1). Jesus é o último Adão (1Co 15.45), e Ele veio ao mundo para salvar as “gerações de Adão” (da qual, a propósito, fazemos parte). Apesar de não ser uma escolha nossa, nascemos na geração de Adão, e isso nos torna pecadores. Mas, por uma escolha de fé, podemos nascer na geração de Jesus Cristo e nos tornar filhos de Deus!

Quando lemos a genealogia em Gênesis 5, a repetição da expressão “e ele morreu” soa como badalar fúnebre de um sino. O Antigo Testamento mostra que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Mas quando passamos para o Novo Testamento, a sua primeira genealogia enfatiza o nascimento, não a morte! A mensagem do Novo Testamento diz que “o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23).

O Antigo Testamento é um livro de promessas; o Novo Testamento, por sua vez, é um livro de cumprimento (por certo, há inúmeras promessas preciosas no Novo Testamento, mas me refiro, aqui, à ênfase principal de cada parte da Bíblia). Deus prometeu um Redentor em Gênesis 3:15, e Jesus Cristo cumpriu essa promessa. Cumprir é uma das palavras-chaves do Evangelho de Mateus, usada cerca de vinte vezes.

Um dos propósitos deste Evangelho é mostrar que Jesus Cristo cumpriu as promessas do Antigo Testamento a respeito do Messias. Seu nascimento em Belém cumpriu Isaías 7.14 (Mt 1:22,23). Foi levado ao Egito, onde ficaria mais seguro e, desse modo, cumpriu Oseias 11:1 (Mt 2:14,15). Quando José e sua família decidiram se estabelecer em Nazaré, cumpriram várias profecias do Antigo Testamento (Mt 2:22,23). Em seu Evangelho, Mateus apresenta pelo menos 129 citações ou alusões ao Antigo Testamento. Escreveu principalmente a leitores judeus para mostrar-lhes que Jesus Cristo era, de fato, o Messias prometido.

2. O Biógrafo: apresentou um novo Rei
A julgar pela definição moderna, nenhum dos quatro Evangelhos pode ser considerado uma biografia. Aliás, o apóstolo João duvidou que fosse possível escrever uma biografia completa de Jesus (Jo 21:25). Os Evangelhos deixam de foram uma série de detalhes sobre a vida de Jesus aqui na terra.

Cada um dos quatro Evangelhos tem uma ênfase particular. O Evangelho de Mateus é chamado “o Evangelho do Rei” e foi escrito principalmente para os leitores judeus. O Livro de Marcos, “o Evangelho do Servo”, foi escrito para instruir os leitores romanos. Lucas escreveu principalmente para os gregos e apresentou Cristo como o “perfeito Filho do homem”. João é de interesse universal, e sua mensagem é “Este é o Filho de Deus”. Nenhum dos Evangelhos é suficiente para contar toda a história da forma que Deus quer que a vejamos. Porém, quando juntamos os quatro relatos, vemos uma imagem mais complexa da Pessoa e obra de nosso Senhor.

Uma vez que estava acostumado a manter registros sistemáticos, Mateus apresenta um relato extremamente organizado da vida e ministério de nosso Senhor. O livro pode ser dividido em dez seções, que alternam o “fazer” e o “ensinar”. Cada seção de ensinamentos termina com a frase: “Quando Jesus terminou estas palavras” ou uma declaração semelhante de transição. Os capítulos podem ser divididos da seguinte maneira:

Narrativa
Ensinamentos
Transição
1-4
5 - 7
7:28
8:1 – 9:34
9:35 – 10:42
11:1
11:2 – 12:50
13:1-52
13:53
13:53 – 17:27
18:1-35
19:1
19:1 – 23:39
24:1 – 25:46
26:1
26:1 – 28:20   (a narrativa
 da Paixão)

Mateus descreve Jesus como um Homem de ação e um Mestre, registrando pelo menos vinte milagres específicos e seus mensagens principais: o Sermão do Monte (caps. 5-7), a comissão dos apóstolos (cap. 10), as parábolas do reino (cap. 13), as lições sobre o perdão (cap. 18), as acusações contra os fariseus (cap. 23), o discurso profético no monte das Oliveiras (cap. 24-25). Pelo menos 60% do livro é dedicado ais ensinamentos de Jesus.

É importante lembrar que Mateus concentra-se no reino. No Antigo Testamento, a nação de Israel era o reino de Deus na terra: “Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Ex 19:6). Muitos, nos dias de Jesus, esperavam pelo libertador enviado por Deus, que os libertaria da escravidão romana e restabeleceria o reino glorioso de Israel.

A mensagem do reino dos céus foi pregada inicialmente por João Batista (Mt 3:1-2). Jesus também pregou esta mensagem no começo do seu ministério (4:23) e enviou os doze apóstolos com a mesma proclamação (Mt 10:1-7).

Porém, as boas novas do reino exigiam do povo uma resposta moral e espiritual, não apenas a aceitação de um conjunto de regras. João Batista pedia arrependimento. Semelhantemente, Jesus deixou bem claro que não tinha vindo para conquistar Roma, mas para transformar o coração e a vida daqueles que cressem nele. Antes de entrar na glória do reino, Jesus suportou o sofrimento da cruz.

Podemos observar, ainda, que Mateus organizou seus textos de acordo com tópicos, não em sequencia cronológica. Agrupou dez milagres nos capítulos 8-9 em vez de colocá-los dentro de sua sequencia histórica aos longo da narrativa do Evangelho. Sem dúvida, vários outros acontecimentos foram totalmente omitidos. Ao considerar a harmonia existente entre os Evangelhos, vemos que Mateus segue um padrão próprio sem, no entanto, contradizer os outros evangelistas.

Além de ser responsável pela tradição do Antigo para o Novo Testamento e de apresentar a biografia de um novo Rei, Jesus Cristo, Mateus também cumpriu um terceiro propósito ao escrever seu livro.

3. O homem de fé: apresentou um novo povo
Esse novo povo era, evidentemente, a Igreja. Mateus é o único escritor a usar a palavra igreja em seu texto (Mt 16:18; 18:17). O termo grego traduzido por “igreja” significa “uma assembleia chamada para fora”. No Novo Testamento, esse termo refere-se, em geral, à congregação local dos cristãos. No Antigo Testamento, Israel era escolhido por Deus, começando com o chamado de Abraão (Gn 12:1ss; Dt 7:6-8). Aliás, Estêvão chama a nação de Israel de “a congregação [igreja] no deserto” (At 7:38), pois era o povo de Deus chamado para fora.

Porém, a Igreja do Novo Testamento é formada por um povo diferente, pois é constituída tanto de judeus quanto de gentios. Nessa igreja, não há qualquer distinção racial (Gl 3:28). Apesar de ter escrito principalmente para judeus, ainda assim o Evangelho de Mateus possui um elemento “universal” que inclui os gentios. Por exemplo, líderes gentios vão adorar o menino Jesus (Mt 2:1-12). Jesus realiza milagres para os gentios e até os elogia por sua fé (Mt 8:5-13; 15:21-18). A rainha de Sabá é louvada por se mostrar disposta a fazer uma longa jornada a fim de ouvir a sabedoria de Salomão (Mt 12:42). Num momento de crise em seu ministério, Jesus fala de uma profecia sobre os gentios (Mt 12:14-21). Mesmo nas parábolas, Jesus indica que as bençãos que Israel recusou seriam compartilhadas com os gentios (Mt 22:8-10; 21:40-46). De acordo com o discurso no monte das Oliveiras, a mensagem seria levada “a todas as nações” (Mt 24:14), e a comissão do Senhor envolveria todas as nações (Mt 28:19-20).

Na igreja primitiva, havia apenas cristãos judeus e prosélitos (At 2-7). Quando o evangelho chegou a Samaria (At 8), o povo mestiço de judeus e gentios passou a fazer parte da igreja. Depois que Pedro foi à casa de Cornélio (At 10), os gentios também começaram a participar da Igreja. A assembleia de Jerusalém (At 15) determinou que os gentios não precisavam tornar-se judeus antes de se tornar cristãos.

Mateus apresenta toda esta questão de antemão, e quando seu livro foi lido pelos membros judeus e gentios da Igreja primitiva, ajudou a resolver diferenças e a promover a unidade. Mateus deixa claro que esse novo povo, a Igreja, não deveria apoiar qualquer forma de exclusão racial ou social. Pela fé em Jesus Cristo, os cristãos são “todos um” no corpo de Cristo, a Igreja.

A própria experiência de Mateus com o Senhor, relatada em Mateus 9:9-17, é um belo exemplo da graça de Deus. Seu antigo nome era Levi, o filho de Alfeu (Mc 2:14). “Mateus” significa “o dom de Deus”. Ao que parece, esse nome foi dado para comemorar sua conversão e seu chamado para ser discípulo.

É importante lembrar que os coletores de impostos faziam parte de uma das classes mais odiadas da sociedade judaica. Para começar, eram traidores da própria nação, pois ganhavam o sustento “vendendo-se” aos romanos ao trabalhar para o governo. Cada coletor adquiria de Roma o direito de recolher impostos; quanto mais recolhia, mais conseguia guardar para si. Os coletores eram considerados ladrões e traidores, e seus contatos com os gentios também os colocavam à margem da religião, a ponto de serem tidos como impuros. Jesus refletiu a opinião popular acerca dos publicanos ao classificá-los junto a prostituas e a outros pecadores (Mt 5.46, 47; 18:17), mas deixou claro que era “amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11:19; 21;31,32).

Mateus abriu o seu coração para Jesus Cristo e se tornou uma nova pessoa. Não foi uma decisão fácil para ele. Era de Cafarnaum, cidade que havia rejeitado o Senhor (Mt 11:23). Também era um negociante conhecido na cidade e, provavelmente, foi perseguido pelos amigos de outros tempos. Sem dúvida, perdeu muito dinheiro quando deixou tudo para seguir a Cristo.

Mateus não apenas abriu seu coração, mas também sua casa. Sabia que muitos de seus velhos amigos, senão todos, o abandonariam quando começasse a seguir a Jesus Cristo. Por isso, aproveitou a situação e os convidou para conhecer Jesus. Deu uma grande festa e convidou todos os coletores de impostos (é possível que alguns deles fossem gentios) e judeus que não guardavam a lei (“pecadores”).

Evidentemente, os fariseus criticaram Jesus por assentar-se à mesma mesa que toda essa gente impura e até tentaram instigar os discípulos de João Batista a criar uma desavença (Lc 5:33). No entanto, Jesus explicou por que estava andando com “publicanos e pecadores”: eram espiritualmente enfermos e precisavam de um médico. O Senhor não veio chamar os justos, pois não havia justos. Veio chamar pecadores, e isso incluía os fariseus. Por certo, seus críticos não se consideravam “enfermos espirituais”, mas isso não muda o fato de que eram isso mesmo.

Mateus não apenas abriu o seu coração e sua casa como também abriu suas mãos e trabalhou para Cristo. Alexander White de Edimburgo disse, certa vez, que, quando Mateus deixou seu emprego para seguir a Cristo, levou consigo sua pena de escrever! Mal sabia ele, na época, que um dia seria usado pelo Espírito para escrever o primeiro dos quatro Evangelhos do Novo Testamento!

Diz a tradição que Mateus ministrou na Palestina durante vários anos, depois que Jesus voltou para o céu, e que fez viagens missionárias para levar o evangelho aos judeus dispersos entre os gentios. Seu trabalho é relacionado à Pérsia, Etiópia e Síria, e algumas tradições incluem ainda a Grécia. O Novo Testamento não diz coisa alguma sobre sua vida, mas podemos afirmar com certeza que, por onde quer que as Escrituras passem neste mundo, o Evangelho escrito por Mateus continua a ministrar ao coração de seus leitores.


Fonte: WIERSBE, Warrem W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento: volume I. Santo André,SP: Geográfica Editora, 2006.





segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ministérios Fracassados

Assista a este documentário. Ele é uma reflexão para os nossos dias. Qual sua concepção de sucesso ministerial? Se para você ele está intrinsecamente ligado a resultados, assista a estes depoimentos... 

"o que se requer dos despenseiros é que cada um seja encontrado fiel" (1 Co 4:2)


“As pessoas já estão cansadas de atores com emoções falsas. Cansados de pirotecnia e efeitos especiais. [...] Truman não tem nada de falso. Não tem roteiro nem deixas. Não é sempre um Shakespeare, mas é genuíno. É uma vida.”  (Christof, de “O Show de Truman”)



Fonte: http://yagomartins.com/2012/11/ministerios-fracassados-documentario-2/

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Três estímulos para aqueles que amam a Bíblia

Trechos extraídos do livro "Pense", de John Piper, distribuído pela Editora Fiel, publicados no Blog Fiel. 

1. Não coloque o Espírito contra o estudo aplicado da Escritura

“[...] Paulo disse a Timóteo: “Pondera o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão em todas as coisas” (2 Tm 2.7). A ordem era que ele pensasse, considerasse, usasse a mente para tentar entender o que Paulo estava dizendo. E a razão que Paulo apresenta para a ordem de pensar é esta: “Porque o Senhor te dará compreensão”. Paulo não coloca essas coisas em tensão: pensar, por um lado, e receber de Deus o dom de entendimento, por outro lado. Essas duas coisas andam juntas. Pensar é essencial para chegarmos ao entendimento. Mas o entendimento é um dom de Deus.”

2. A alegria está no outro lado do trabalho árduo

“[...] A pessoa que não aceita a dor e a frustração permanecerá em baixos níveis de realização e gozo. Por exemplo, aprender a dirigir um carro é algo cheio de tensão. [...] Mas, se você desistir, perderá as alegrias de dirigir onde lhe agrada e de ser capaz de realizar uma conversa enquanto dirige, o que ocorre somente quando o dirigir já se tornou algo natural.
[...] A alegria está no outro lado do trabalho árduo. Esse é um elemento básico de todo crescimento. Parte da maturidade está em compreender o princípio da satisfação protelada. Se você não pode aceitar o sofrimento do aprendizado e quer satisfação imediata, você perde as maiores recompensas da vida.


Isso também se aplica à leitura da Bíblia. As maiores riquezas são para aqueles que trabalham com empenho para entender tudo que ela contém. Na Bíblia, há centenas de conexões e significados que não saltam da página na primeira leitura – pelo menos, não para mim. Tenho de ler devagar e começar a fazer perguntas sobre as palavras e as conexões. Ou seja, pensar tem de se tornar intencional.
[...]
Mas já compreendemos que nossa habilidade de leitura – nossa habilidade de pensar – que nos serve tão bem na maior parte de nosso tempo, não vê tudo que a Bíblia tem a dizer. Chega o momento em que decidimos ser intencionais em nosso pensar, para crescermos no que vemos e entendemos. Se não escolhemos pensar com empenho, aceitaremos um nível de entendimento de adolescente pelo resto de nossa vida.”

3. Fazer perguntas é a chave para o entendimento

“Quando falo a respeito de tornar-se intencional em pensar com empenho, isto é principalmente o que estou querendo dizer: fazer perguntas e labutar com nossa mente para respondê-las. Portanto, aprender a pensar frutiferamente nos textos bíblicos implica em que temos de formar o hábito de fazer perguntas. Os tipos de perguntas que você pode fazer ao texto são quase intermináveis.
  • Por que ele usou essa palavra?
  • Por que ele a usou aqui e não lá?
  • Como ele a usa em outras passagens?
  • De que maneira essa palavra difere desta outra que ele poderia ter usado?
  • Como a combinação destas palavras afeta o significado dessa palavra? [...]

Fonte: http://www.blogfiel.com.br



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Reinventando a dimensão educacional do culto


Se a educação cristã não se restringe nem à Escola Dominical, nem às aulas tradicionais, se a educação cristã é a formação do povo de Deus para a vida e a missão, se a educação cristã é ferramenta do Espírito para a renovação da igreja, podemos nos indagar em termos mais práticos e estruturais: que alternativas concretas se apresentam para a nossa prática educacional global, enquanto igrejas cristãs, no início deste novo século e milênio?

Reinventando a dimensão educacional do culto

Enquanto a ênfase na educação cristã regredia, crescia exponencialmente a valorização do culto e da música na igreja local. Na década de 1990, e nesses primeiros anos do século XXI, presenciamos grandes avanços na música e na liturgia das igrejas evangélicas, também acompanhados de limites e graves problemas.

Refletindo de forma esquemática sobre os pontos positivos dessas mudanças, talvez possamos destacar: o corpo dos cristãos passou a fazer parte viva dos cultos - palmas, movimento, dança, coreografia se tornaram comuns em muitas igrejas, ritmos, melodias, letras brasileiras foram incorporados aos cultos, o ministério de adoração passou a ser enfatizado, e muitos jovens se envolveram com a música e o louvor na igreja; emoções que anteriormente tinham pouco lugar no culto passaram a ocupar lugar central – alegria, exaltação, autoafirmação.

Sem desmerecer nenhum desses avanços, é preciso, porém, enumerar alguns aspectos negativos adotados na prática litúrgica “típica” em igrejas evangélicas: 1) a lógica litúrgica se tornou demasiado simples (ou, por que não dizer simplista?), reduzindo-se os cultos a músicas em sequência e sermão; 2) há uma ênfase demasiada sobre o desempenho musical, em detrimento da maturidade espiritual e emocional dos grupos de louvor; 3) a escolha de canções para o culto depende, em demasia, de critérios mercadológicos e midiáticos – o CD que “vende mais”, a canção que mais toca nas rádios, a cantora ou cantor “mais famoso”; 4) o baixo nível de formação e reflexão teológica da maior parte dos novos “levitas” e dirigentes de louvor, acompanhado de relações conflitivas com pastores e pastoras.

Em um livro sobre educação cristã, você pode se perguntar, por que tais considerações sobre culto e liturgia? Porque o culto é uma das estruturas mais importantes da educação cristã na igreja local? Não! Não se preocupe, não vou propor que os cultos voltem a ser “chatos”, “antiquados”, seguindo as regras da liturgia européia. O culto é, primariamente, encontro de adoração a Deus, de celebração de seus atos em nosso favor e em favor do mundo por ele criado, encontro de gratidão, testemunho e preparação para voltar a viver, no tempo secular, a fé e a missão. E é exatamente como culto que ele desepenha papel fundamental na formação cristã integral. Não precisamos transformar o culto em “aula” para que ele seja educador. Entretanto, precisamos trabalhar para que se torne presente a função educacional do culto, para que seu caráter pedagógico seja valorizado. Senão, como haver uma educação transformadora na igreja?

Algo que tem sido bastante esquecido é que existe uma lógica litúrgica que dá sentido ao culto. Essa lógica deve ser fundamental para a sua estrutura. Ou seja: ao preparar o culto, dê asas à criatividade, mas asas que nos levem ao encontro do Senhor, e não às nuvens vazias. A lógica litúrgica se compõe de: entrada na presença de Deus (separando o tempo “secular” do tempo “sagrado”), exaltação de Deus (que se dispõe a nos receber em sua presença), confissão de pecado (pois não se pode entrar na presença de Deus sem o reconhecimento de nossa pecaminosidade), gratidão a Deus pelo seu perdão e sua ação em nosso benefício (que pode incluir testemunho e até mesmo batismo), reconhecimento da comunidade e da comunhão cristãs (com ou sem a eucaristia), exposição da palavra de Deus (através de sermão, ou não), compromisso com o Deus da palavra, envio da igreja à missão no mundo. Essa lógica é, em si, educadora. Quando o culto se reduz apenas a uma sequência de cânticos e um sermão, ensina muito pouco – e ensina mal: que a vida cristã é apenas felicidade, busca de bênçãos e comunhão entre irmãos. Já a lógica litúrgica ensina que a vida cristã nasce, cresce e se concretiza em nossa submissão a Deus, em nossa vida entregue ao seu Filho, em nossa dependência do Espírito. A forma do culto pode e deve variar, com criatividade, mas precisa sempre ser fiel à lógica litúrgica! Quando a abandonamos, o culto passa a impressão de “liberdade no Espírito” mas, na prática, não passa de um tradicionalismo repetitivo – pura celebração da mesmice.

Aliada à lógica litúrgica praticada de forma contextual e criativa, o culto precisa de conteúdo bíblico e teológico de qualidade. Hoje, a “teologia” do povo de Deus é, primariamente, a teologia cantada e não a ouvida e lida. Escolher cuidadosamente as músicas, não em função de ritmo, mas em função da mensagem bíblica e teológica que transmitem, é fundamental. Nesse sentido, precisamos de uma revolução prática nas igrejas. Dirigentes de louvor, musicistas, “levitas”, seja como for que chamemos as pessoas que participam na elaboração e direção dos cultos, precisam conhecer profundamente a Escritura e a teologia cristã – tanto quanto os pastores e as pastoras! Entregar a escolha das músicas a serem cantadas no culto a quem não conhece (ou conhece pouco, ou, pior, conhece mal) a Bíblia e teologia provoca deseducação do povo de Deus. Alguns critérios simples: as letras precisam falar muito mais de Deus do que de “eu”, de “mim”, de “meu”... As letras precisam valorizar os alvos da vida eclesial: discernimento, missão, humanização, cidadania etc. As letras não podem ser antropocêntricas nem cardiocêntricas (só voltadas para as emoções). Que desafio! Há muito trabalho a ser feito nessa área.

Outro aspecto indispensável é que o lamento faça parte de nossos cultos. O lamento, no sentido bíblico, é composto de súplica, confissão e intercessão. Lamentar a Deus significa que reconhecemos nossa pecaminosidade, compreendemos que ele responde à oração, percebemos nosso compromisso missionário e oramos pelo mundo amado por Deus – e não só por nós mesmos. O lamento é o momento litúrgico do clamor: clamar a Deus por perdão e crescimento espiritual, clamar a Deus por crescimento e desenvolvimento da igreja, clamar a Deus pelo mundo sem Cristo. No lamento, especialmente na intercessão, nós nos identificamos solidária e compassivamente com a humanidade pecadora e reconhecemos que nossa salvação nos coloca na condição de missionários e embaixadores de Jesus Cristo no mundo. Releia e reflita cuidadosamente sobre Colossenses 3.14-17 e o papel educacional do culto.

Para finalizar, um destaque: o culto deve sempre orientar o povo de Deus para a ação missionária no mundo. O culto não pode ser egocêntrico, egoísta, voltado para dentro de nós mesmos. Se for assim, será doentio – acúmulo de bênçãos provoca doenças espirituais terríveis. A bênção de Deus deve ser repartida, ou se transformará em maldição.

(Trecho extraído de  ZABATIERO, Júlio. Novos caminhos para a educação cristã. São Paulo : Hagnos, 2009)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Interpretação das Escrituras


Orígenes1, no seu quarto livro, De Principiis, dá-nos algumas sugestões valiosas sobre como interpretar as Escrituras. Segundo Orígenes, as Escrituras são semelhantes ao complexo humano, tendo diversos níveis de significados possíveis.

O corpo físico
Como o homem tem um corpo mortal, material, assim as Escrituras, às vezes, devem ser interpretadas literalmente.

A alma
Como o homem tem uma alma, assim as Escrituras, às vezes, devem ser interpretadas moralmente. Isto é, lições morais podem ser extraídas de passagens que, entendidas literalmente, não tem significado para nós. Por exemplo, aquelas passagens que descrevem matanças e brutalidades dificilmente nos podem ensinar alguma coisa sobre a espiritualidade. Na verdade, são repugnantes para nós. Até mesmo nesses casos, podemos extrair lições morais importantes.

O espírito
O homem é um espírito; assim as Escrituras, às vezes, devem ser interpretadas espiritualmente, ou misticamente, através de metáforas. Dessa maneira, verdades podem ser obtidas além do literal ou moral.

Algumas passagens admitem os três modos de interpretação, mas outras são limitadas a um ou dois. Segundo Orígenes, a forma como lemos as Escrituras Sagradas indica o nosso estágio de amadurecimento espiritual e nossa capacidade intelectual.

A verdade como uma aventura

Enquanto algumas verdades são dadas livremente através da revelação e podem ser entendidas facilmente, outras, com frequência, exigem trabalho árduo para que sejam compreendidas. A verdade pode ser como uma mina de ouro que precisa ser trabalhada. O homem que se esforça em descobrir a verdade é aquele que recebe a recompensa dos tesouros de sabedoria e conhecimento. A verdade é uma aventura. Não devemos ter medo de nos aventurar, porque esta aventura é gloriosa. Não devemos permitir que os dogmas impeçam a nossa busca.

1 Orígenes de Alexandria (185-254), é considerado, juntamente com Santo Agostinho, o maior gênio do cristianismo antigo. É um dos maiores teólogos e escritores do começo do cristianismo (vide http://www.filosofia.com.br)


Fonte: CHAMPLIN, Russell Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Volume 1. São Paulo: Hagnos, 2ª ed, 2001.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Entendes tu o que lês?


"[...] E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes tu o que lês? E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse. E o lugar da Escritura que lia era este: Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, Assim não abriu a sua boca. Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento; E quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra. E, respondendo o eunuco a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro? Então Filipe, abrindo a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus" (Atos 8:30-35)



Filipe faz uma pergunta justa: Entendes tu o que lês? (v.30). Não para repreender, mas com a intenção de lhe servir. Note que o que lemos e ouvimos da palavra de Deus é para que a entendamos, sobretudo o que lemos e ouvimos em relação a Jesus. Devemos nos perguntar se entendemos ou não o que lemos: Entendestes todas estas coisas? (Mt 13.51). Entendestes todas estas coisas corretamente? Não podemos nos beneficiar com as Escrituras a menos que as entendamos em certa medida (1 Co 14.16,17). E, abençoadas por Deus, o que é necessário para a salvação é fácil de ser entendido.

O eunuco, sentindo necessidade de ajuda, deseja a companhia de Filipe: “Como poderei entender, diz ele, se alguém não me ensinar? (v.31). Sobe e senta-te comigo”.

(1) O eunuco fala como alguém que tivesse opinião desfavorável sobre si mesmo e duvidasse da própria capacidade e conhecimento. Ele estava muito longe de considerar afronta alguém lhe perguntar se ele entendia o que lia, embora Filipe fosse um estranho, estivesse a pé e, provavelmente, parecesse pobre e humilde (por muito menos outra pessoa teria dito que ele era impertinente, que cuidasse de sua própria vida e que ele não era ninguém para dizer isso). Ele trata a pergunta com amabilidade e dá uma resposta bastante humilde: “Como poderei...?” Temos motivo para pensar que ele era inteligente e bastante familiarizado com o significado das Escrituras, como a maioria, mas mesmo assim confessa humildemente sua deficiência. Note que para aprender tem de haver alguém que ensine. O profeta tem de, primeiramente, reconhecer que não sabe o que é isto para que, então, o anjo lhe diga (Zc 4.13).

(2) O eunuco fala como alguém que possui muito desejo de aprender, de ter alguém que o oriente. Note que ele lia as Escrituras, embora houvesse muitas coisas nela que ele não entendesse. Mesmo que haja na Bíblia muitos pontos difíceis de entender (2 Pe 3.16) e muitos outros sejam interpretados erroneamente, não devemos desistir. Temos de estudar os pontos difíceis por causa dos pontos fáceis, pois este é o modo mais provável de, pouco a pouco, virmos a entender os pontos difíceis: o conhecimento e a graça aumentam gradualmente.

(3) O eunuco convidou Filipe para que subisse e com ele se assentasse (v.31). Não como Jeú, que convidou Jonadabe para acompanhá-lo no carro e ver o zelo que ele tinha para com o Senhor (2 Re 10.16), mas: “Vem ver a minha ignorância, e instrui-me”. Ele alegremente honrará Filipe, levando-o no carro, se Filipe lhe fizer o favor de lhe expor um trecho das Escrituras. Note que para entendermos corretamente as Escrituras precisamos de orientação: alguns livros bons e alguns homens bons, mas, acima de tudo, o Espírito da graça, para nos guiar a toda a verdade.

O trecho das Escrituras que o eunuco recitou e algumas indicações de Filipe a esse respeito

Os pregadores do Evangelho tinham um pretexto muito bom para prender os que estavam familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento e as recebiam, sobretudo, quando se achavam empenhados em estudá-las, como este eunuco.

O capítulo que o eunuco estava lendo era Isaías 53. Aqui são citados dois versos: partes dos versículos 7 e 8. Eles (vv. 32,33) estão registrados de acordo com a versão da Septuaginta, a qual em certos pontos difere do original hebraico. Grotius opina que o eunuco leu o texto em hebraico, mas Lucas segue a tradução da Septuaginta, por estar mais fluente à língua na qual ele escrevia. Ele supõe que o eunuco aprendera a religião e a língua hebraica dos muitos judeus que moravam na Etiópia. Mas, considerando que a versão da Septuaginta foi elaborada no Egito, país adjacente à Etiópia, e que se situava entre este e Jerusalém, prefiro pensar que a tradução lhe era muito conhecida. O texto de Isaías 20.4 dá a entender que as relações entre essas duas nações - Egito e Etiópia – eram bastantes extensas. A maior variação do hebraico é a que está no original: “Ele foi tirado da prisão e do julgamento” ([Is 53.8, LXX] quer dizer, ele foi levado com extrema violência e precipitação de um tribunal a outro; ou: Da opressão e do juízo foi tirado [Is 53.8, versão RC], quer dizer, ele foi tirado da fúria do povo e seus clamores ininterruptos, e do julgamento de Pilatos após), aqui está escrito: Na sua humilhação, foi tirado o seu julgamento (v.33). Ele parecia tão vil e desprezível aos olhos das pessoas que elas lhe negaram a justiça comum. Indo contra todas as regras da imparcialidade, cujo benefício todo indivíduo tem direito, mesmo tendo-o declarado inocente, os homens o condenaram à morte. Assim, na sua humilhação, foi tirado o seu julgamento. Vemos, então, que o sentido é muito semelhante ao do hebraico. Portanto, este versículos são predições relativas ao Messias.

(1) O Messias morreria, seria levado [..] para o matadouro (v.32), como as ovelhas eram oferecidas em sacrifício – que sua vida seria tirada dentre os homens, tirada da terra. Com que pequena razão foi a morte de Cristo uma pedra de tropeço para os judeus incrédulos, visto que foi predita de forma tão clara pelos seus próprios profetas e era tão necessária para a realização do seu empreendimento! Logo, o escândalo da cruz está aniquilado (Gl 5.11).

(2) O Messias morreria injustamente, morreria por violência, seria arrancado de sua vida, pois o seu julgamento seria tirado (v.33). Não lhe seria feito justiça, porque Ele deveria ser tirado e não seria mais (Dn 9.26).

(3) O Messias morreria pacientemente. Como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia (v.32), não somente diante do tosquiador, mas diante do açougueiro também, assim não abriu a sua boca. Nunca haverá tal exemplo de paciência como o nosso Senhor teve em seus sofrimentos. Quando Ele foi acusado, quando foi maltratado, ficou calado, quando o injuriavam e, quando padecia, não ameaçava (1 Pe 2.23).

(4) O Messias, apesar disso, viveria para sempre, por séculos que não poderiam ser numerados. É como entendo essas palavras: Quem contará a sua geração? (v.33). A palavra hebraica significa, corretamente, “a duração de uma vida” (Ec 1.4). Não obstante, quem pode conceber ou expressar quanto tempo Ele permanecerá? Porque a sua vida é tirada somente da terra. No céu, Ele viverá pelos séculos infinitos e inumeráveis, como consta em Is 53.10: Ele prolongará os seus dias.

A pergunta do eunuco sobre estas Escrituras é: De quem diz isto o profeta? (v.4). Ele não deseja que Filipe lhe faça alguns comentários criteriosos sobre as palavras, frases e expressões idiomáticas da língua, mas que o inteire da extensão e desígnio geral da profecia, que lhe dê uma chave, no uso da qual ele possa, comparando uma coisa com a outra, ser conduzido ao significado da passagem em particular. No geral, as profecias tinham em si algo de ambiguidade, até serem explicadas pelo seu cumprimento, como ocorre com esta. Tratava-se de uma pergunta muito importante e muito sensata: “O profeta […] diz […] de si mesmo ou de algum outro, na perspectiva de ser usado, de ser maltratado, como foram os outros profetas? Ou ele fala de algum outro de sua própria época, ou de alguma época vindoura?”.Embora os judeus modernos não admitam que isto se refira ao Messias, os seus antigos doutores assim o interpretavam. Talvez o eunuco soubesse disso e em parte entendesse o texto assim, servindo-se desta pergunta apenas para ocasionar a conversa com Filipe, pois o modo de melhorar o aprendizado é consultar os instruídos. Como eles têm de buscar a lei da boca do sacerdote (Ml 2.7), assim eles têm de investigar o evangelho da boca dos ministros de Jesus (Filipe, abrindo a boca, v.35), sobretudo aquela parte do tesouro que está escondido no campo do Antigo Testamento. O modo de receber boas instruções é fazer boas perguntas.

Filipe aproveita esta excelente oportunidade para abrir ao eunuco o grande mistério do evangelho relativo a Jesus Cristo e este crucificado (1 Co 2.2). Ele começou nesta Escritura (v.35), tomando-a por seu texto (como fez Jesus em outra passagem da mesma profecia, Lc 4.21), e lhe anunciou a Jesus. Esta é a narrativa total que temos do sermão de Filipe, porque na verdade era igual aos sermões de Pedro que já temos. O trabalho dos ministros do evangelho é anunciar a Jesus, e esta é a pregação mais provável de ser bem sucedida. É provável que agora Filipe tivesse oportunidade de usar o seu dom de línguas para pregar Jesus a este etíope no idioma de seu próprio país. Aqui temos um exemplo de falar das coisas de Deus, falando delas utilmente, não apenas quando nos assentamos em casa, m as também quando andamos pelo caminho, de acordo com a regra deuteronômica (Dt 6.7).

(extraído de HENRY, Mattew. Comentário Bíblico Novo Testamento – Atos a Apocalipse. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, 1ªed.)