quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os riscos do estudo das falácias exegéticas


Se existem razões pelas quais um estudo das falácias exegéticas é importante, há também razões pelas quais tal estudo é arriscado.

A primeira delas é o fato de que um negativismo contínuo é espiritualmente perigoso. Se a principal ambição da vida de alguém é descobrir tudo o que está errado — seja com relação à vida, seja no que diz respeito a algum componente dela, como por exemplo a exegese — essa pessoa está se expondo à destruição espiritual. Gratidão a Deus tanto pelas coisas boas quanto por Sua soberana proteção e propósito, mesmo nos fatos ruins, é a primeira virtude que se perde. A isso logo se seguirá a humildade, na medida em que o crítico, conhecendo profundamente as falhas e falácias (especialmente as dos outros!), começa a se sentir superior àqueles que ele censura. Sentimento de superioridade espiritual não é uma virtude cristã. O negativismo constante é um alimento altamente energético para o orgulho. Tenho observado que os estudantes de seminário, sem falar dos professores, não estão particularmente livres desse perigo.

Por outro lado, concentrar-se por muito tempo em erros e falácias pode produzir um efeito bastante diferente em algumas pessoas. Para aqueles que já são inseguros quanto a si mesmos ou estão profundamente amedrontados pelas responsabilidades que pesam sobre os ombros dos que foram comissionados para pregar todo o desígnio de Deus, um estudo assim poderá levá-los ao desânimo, até mesmo ao desespero. Um estudioso mais sensível poderia perguntar: "Se há tantas armadilhas exegéticas e ciladas hermenêuticas, como posso ter certeza de que estou interpretando e pregando as Escrituras da maneira correta? Como posso evitar o terrível fardo de ensinar alguma inverdade, depositar na consciência do povo de Cristo coisas que Ele próprio não impõe ou eliminar aquilo que Ele insiste em manter? Quantos danos poderei causar com minha ignorância e falta de habilidade exegética?"

Para tais estudiosos, só posso dizer que, se deixarem de se envolver em um estudo assim, estarão cometendo mais erros do que se enfrentarem as questões difíceis e aprimorarem suas habilidades. A grande diferença é que no primeiro caso você não estará consciente de suas falhas. Se estiver sinceramente preocupado com a qualidade de seu ministério, e não somente com sua insegurança psicológica, essa alternativa será inaceitável. A ignorância pode trazer satisfação, mas não é nenhuma virtude.

O perigo fundamental em todo estudo crítico da Bíblia encontra-se no que os especialistas da hermenêutica chamam "distanciamento". O distanciamento é um componente necessário do trabalho crítico; contudo, é uma tarefa difícil e, às vezes, penosa. Poderemos visualizar melhor o que está em risco se considerarmos um fenômeno comum em seminários cristãos.

João de Deus converteu-se quando estava no último ano do colegial. Ele ingressou na faculdade e estudou computação; mas também trabalhava com afinco em sua igreja e desfrutava de um ministério eficaz no grupo local da ABU. Seus momentos de oração eram fervorosos e freqüentes. Apesar de carências ocasionais não-supridas, quando lia a Bíblia, em geral ele se sentia como se o Senhor estivesse lhe falando diretamente. Ainda assim, havia muita coisa nas Escrituras que ele não compreendia. Quando começou a ter firme convicção de que deveria se comprometer com o ministério cristão em tempo integral, sua congregação local confirmou sua percepção de dons e chamado. Profundamente consciente de suas limitações, ele entrou para o seminário com toda a ânsia de um novato.

Depois de seis meses no seminário, o quadro é bem diferente. João gasta várias horas por dia memorizando a morfologia grega e estudando os detalhes do itinerário da segunda viagem missionária de Paulo. Ele também começou a escrever trabalhos exegéticos; mas quando consegue terminar seu estudo léxico, seu diagrama sintático, seu levantamento de opiniões críticas e sua avaliação de evidências incompatíveis, de alguma forma a Bíblia não lhe parece tão viva como outrora. Ele está perturbado com isso; parece-lhe mais difícil orar e dar seu testemunho agora do que antes de ir para o seminário. Ele não sabe com certeza por que isso acontece — não acredita que a culpa seja dos professores, muitos dos quais parecem ser cristãos piedosos, bem informados e maduros.

O tempo passa. João de Deus tem várias alternativas. Ele pode se retirar para um pietismo defensivo que denuncie rudemente o intelectualismo árido que vê a seu redor; pode ser sugado pelo redemoinho de um tipo de compromisso intelectual que oprima a adoração, a oração, o testemunho e a leitura de meditação das Escrituras; ou pode cambalear de um lado para o outro até ser resgatado pela colação de grau e voltar ao mundo real. Mas há um caminho melhor? Será que tais experiências são um componente essencial da vida no seminário?

A resposta é sim em ambos os casos. Tais experiências são necessárias; elas são causadas pelo distanciamento. Contudo, entender o processo pode capacitar-nos a lidar com ele melhor do que normalmente faríamos. Sempre que tentamos entender a linha de pensamento de um texto (ou de alguma outra pessoa, quanto a essa questão), para que possamos compreendê-lo criticamente — isto é, sem nos basear em algum padrão arbitrário, mas com razões profundas e de acordo com o significado original do autor — devemos antes de mais nada captar a natureza e o grau das diferenças que separam nosso discernimento daquele do texto. Somente então poderemos fundir proveitosamente nosso horizonte de compreensão com o do texto — isto é, somente então poderemos começar a moldar nossos pensamentos pelos do texto, de forma a verdadeiramente entendê-los. Deixar de passar pelo distanciamento antes da fusão geralmente significa que não houve uma fusão real: o intérprete acha que entende o sentido do texto, mas quase sempre simplesmente impôs seus próprios pensamentos ao que foi lido.

Em conseqüência, se uma instituição o ensina a pensar de maneira crítica (no sentido que tenho usado esse termo), você necessariamente enfrentará algum tipo de desarticulação e um incômodo distanciamento. Uma instituição inferior pode não ser tão perturbadora: os alunos são simplesmente levados a aprender, mas não a avaliar.

O distanciamento é difícil e pode ser penoso. Mas não posso deixar de enfatizar veementemente que ele não é um fim em si mesmo. Seu correlativo característico é a fusão de horizontes de compreensão. Desde que tal parte da tarefa de interpretação seja alimentada com o distanciamento, este não se mostrará destrutivo. De fato, a vida, a fé e o pensamento cristãos que surgem deste processo de duplo efeito serão mais fortes, espiritualmente alertas, perspicazes, bíblicos e críticos do que normalmente aconteceria. Alguns passos ao longo do caminho, porém, são perigosos; trabalhe seriamente para a integração de sua caminhada e compromisso cristãos integrais, e a essência deste estudo mostrar-se-á benéfica. Se você deixar de lutar por tal harmonia, provocará um naufrágio espiritual.

[Extraído de “Os Perigos da Interpretação Bíblica” de D.A. Carson.]

sexta-feira, 30 de março de 2012

A interpretação pessoal da Biblia


Dois dos grandes legados que recebemos da Reforma foram o princípio da interpretação pessoal da Bíblia e a sua tradução na língua do povo. O próprio Lutero colocou em foco essas questões. Quando se apresentou diante da Dieta de Worms (um concílio no qual foi acusado de heresia por causa de seus ensinamentos), ele declarou:
"A menos que eu seja convencido pela Escritura, minha consciência continuará cativa da Palavra de Deus - não aceito a autoridade de papas e concílios, porque se têm contraditado. Não posso nem quero retratar-me, porque ir contra a consciência não é certo nem seguro. Que Deus me ajude. Amém."
A declaração de Lutero, e sua subseqüente tradução da Bíblia para sua língua vernácula (do próprio País), tiveram dois efeitos. Primeiro, tirou da Igreja Católica Romana o direito  exclusivo de interpretação. O povo não mais ficaria à mercê das doutrinas da igreja, tendo de aceitar as tradições ou ensinos eclesiásticos como tendo autoridade igual à da Palavra de Deus. Segundo, colocou a interpretação nas mãos do povo. Essa mudança foi mais problemática. Levou aos mesmos excessos sobre os quais a Igreja Romana estava envolvida - interpretações subjetivas do texto que levam ao afastamento da fé cristã histórica.

O subjetivismo tem sido o grande perigo da interpretação pessoal. O princípio da interpretação pessoal não significa que o povo de Deus tenha o direito de interpretar a Bíblia da maneira que bem entender. Juntamente com o "direito" de interpretar as Escrituras vem também a responsabilidade de interpretá-la corretamente. Os crentes têm liberdade de descobrir as verdades da Escrituras, mas não são livres para fabricar suas próprias verdades. São chamados para entender os sólidos princípios de interpretação e evitar os perigos do subjetivismo.

Portanto, buscar um entendimento objetivo das Escrituras de maneira nenhuma reduz a Bíblia a algo frio, abstrato e sem vida. O que estamos fazendo é buscar entender o que a Palavra diz em seu contexto antes de prosseguirmos para a tarefa igualmente necessária de aplicá-la à nossa vida. Uma declaração em particular pode ter numerosas aplicações pessoais possíveis, mas só pode ter um único significado correto. O direito de interpretar a Bíblia leva junto consigo a obrigação de interpretá-la com exatidão. A Bíblia não é um "nariz de cera" que pode ser moldado e assumir a forma desejada pelo intérprete.

Sproul, R.C. 1º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã.

O documento mais famoso dos protestantes


As 95 teses de Martinho Lutero são frequentemente consideradas uma declaração corajosa de independência para a igreja protestante.


Por Christian History & Biography


Quando escreveu quase 100 pontos de debate em latim, Lutero estava simplesmente convidando os seus companheiros acadêmicos para uma “Disputa sobre o poder e a eficácia das indulgências”, o título oficial da tese. (O debate nunca aconteceu, mas as teses foram traduzidas para o alemão e distribuídas largamente, criando um tumulto.)

O que eram indulgências? No sacramento da penitência, os cristãos confessavam pecados e achavam absolvição para eles. O processo de penitência envolvia satisfação – pagar a pena secular por aqueles pecados. Sob certas circunstâncias, alguém que estava realmente contrito e tinha confessado seus pecados podia receber remissão parcial (ou, raramente, completa) da punição secular comprando uma carta de indulgência.

Nas 95 teses, Lutero não atacou a ideia das indulgências, pois na tese 73 ele escreveu “... o Papa se levanta justamente contra aqueles que, por qualquer meio, planejam mal a venda de indulgências”.

Mas Lutero protestou fortemente contra o abuso das indulgências – mais enfaticamente sob a habilidosa capacidade de venda de Johann Tetzel. E, no processo, Lutero derrubou, embora provavelmente não tenha percebido na ocasião, os pilares que apoiavam muitas práticas no cristianismo medieval.

Afirmações-chave

Aqui estão treze amostras das teses de Lutero:

1. Quando nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, diz “arrependam-se” etc, Ele quer dizer que toda a vida do fiel deve ser um arrependimento.

2. Esta afirmação não pode ser entendida do sacramento da penitência, isto é, da confissão e da satisfação, que é administrada pelo sacerdote.

27. Eles pregam a insensatez humana que finge que, ao ressoar o dinheiro no cofre, uma alma foge do purgatório.

32. Aqueles que acham que por causa de suas cartas de indulgências têm certeza da salvação, estarão eternamente perdidos junto com seus professores.

36. Todo cristão que se arrepende de verdade tem perdão total tanto da punição e culpa lançada sobre ele, mesmo sem as cartas de indulgência.

37. Todo cristão verdadeiro, seja vivo ou morto, tem uma parte nos benefícios de Cristo e da igreja, pois Deus tem lhe dado isto, mesmo sem cartas de indulgência.

45. Os cristãos devem ser ensinados que quem ver uma pessoa necessitada, ao invés de ajudá-la, usa seu dinheiro para uma indulgência, não obtém uma indulgência do Papa, mas o desprazer de Deus.

51. Os cristãos devem ser ensinados que o Papa deve dar – e daria – os seus próprios recursos para os pobres, de quem certos pregadores de indulgências extraem dinheiro, mesmo se ele tivesse que vender a Catedral de S. Pedro para fazer isso.

81. Esta pregação desavergonhada de perdões, torna difícil para qualquer homem instruído defender a honra do Papa, contra a calúnia ou responder as perguntas indubitavelmente sagazes dos leigos.

82. Por exemplo: “Por que o Papa não esvazia o purgatório por amor... pois afinal, ele libera incontáveis almas por dinheiro sórdido contribuído para construir uma catedral?”

90. Suprimir estes argumentos inteligentes por parte dos leigos, pela força ao invés de respondê-los com razões adequadas seria expor a igreja e o Papa ao ridículo de seus inimigos e trazer infelicidade aos cristãos.

94. Nós devemos alertar os cristãos a seguir a Cristo, seu Cabeça, através de punição, morte e inferno.

95. E assim, deixe-os por confiança nele, entrar no céu através de muitas tribulações ao invés de alguma falsa segurança e paz.

Dentro de dois meses, Johann Tetzel revidou com suas próprias teses, incluindo: “os cristãos devem ser ensinados que o Papa, por autoridade e jurisdição, é superior a toda a Igreja Católica e seus conselhos, e que eles devem obedecer humildemente seus estatutos”.


quinta-feira, 29 de março de 2012

Buscando o conteúdo doutrinário


''...todo o sermão deveria estar repleto de doutrina. Deve ser rico em teologia. Afinal de contas, a Bíblia é uma revelação divina. Revela a mente de Deus. Ela nos mostra o que devemos crer a respeito dele e o que ele espera de nós em nossa curta existência. Toda vez que a Bíblia é pregada, aqueles que a ouvem devem crescer no entendimento da doutrina e do dever.

A nossa expectativa de vida está entre setenta e oitenta anos. Isto é tempo suficiente para lermos a Bíblia muitas dezenas de vezes. Um pastor de tempo integral que prega durante quarenta anos também desfruta de tempo suficiente para fazer exegese de toda a Bíblia. E o que o leitor da Bíblia, especialmente o exegeta, acaba descobrindo? Ele descobre que as Escrituras contêm um sistema de doutrina. Com toda a Bíblia em mente, é possível afirmar o que ela ensina a respeito de Deus, dos seus decretos, da criação, da providência, da redenção, do livre-arbítrio, da justificação, do juízo, do céu, do inferno e de outros inumeráveis assuntos. […]

A Bíblia é uma caixa repleta de pedras preciosas. É maravilhoso pegar cada pedra preciosa, examiná-la em detalhes e ser comovido por sua beleza. Mas, por que não dizer às pessoas que essas joias pertencem ao Rei que tem lugar para cada uma delas em sua coroa? Devemos permitir que as pessoas vejam como todas as joias se encaixam para adornar a coroa do Rei. Elas nunca esquecerão de tal contemplação. E nunca mais olharão para cada joia como o fizeram antes.

(Extraído de “Pregação Pura e Simples”, de Stuart Olyott. Editora Fiel: 2008, pgs. 49-50)


quarta-feira, 28 de março de 2012

Cristo é o centro e o coração da Bíblia


O Antigo Testamento descreve uma nação.

O Novo Testamento descreve um HOMEM.

A nação foi estabelecida e nutrida por Deus para que desse aquele Homem ao mundo.

O próprio Deus tornou-se homem para dar ao gênero humano uma ideia concreta, definida e palpável do que seja a Pessoa que dever ter em mente quando pensamos em Deus. Deus é tal qual Jesus. Jesus era Deus encarnado, em forma humana.

Seu aparecimento na terra é ao acontecimento central de toda a história. O Antigo Testamento fornece o cenário para esse aparecimento. O Novo Testamento descreve-o.

Como homem, Jesus viveu a vida mais peculiarmente bela que já se conheceu. Ele foi o homem mais bondoso, mais terno, mais gentil, mais paciente, mais compassivo que já existiu. Amava pessoas. Detestava vê-las aflitas. Gostava de perdoar. Deleitava-se em ajudar. Operava milagres estupendos para alimentar gente faminta. Aliviando os que sofriam, esquecia-se de comer. Multidões cansadas, vencidas pelas dores, de coração aflito, vinham a Ele e encontravam cura e alívio. Dele, e de mais ninguém foi dito que se todas as suas obras de bondade fossem registradas o mundo não poderia conter os livros. Jesus foi este tipo de homem. E Deus é este tipo de pessoa.

Depois: Ele morreu numa cruz, para tirar o pecado do mundo, para tornar-se o Redentor e Salvador do homem.

Depois ainda: ressurgiu dos mortos e agora vive. Não é apenas uma personalidade histórica, porém, uma pessoa viva. Ele é o fato mais importante da História e a força mais vital do mundo de hoje.

Toda Bíblia se desenvolve ao redor desta bela história de Cristo e da sua promessa de vida eterna, feita a quantos o aceitam. A Bíblia foi escrita somente para que o homem creia, e entenda, e conheça, e ame, e siga a CRISTO.

Cristo, centro e âmago da Bíblia, centro e âmago da História, é o centro e o âmago de nossas vidas. Nosso destino eterno está em suas mãos. De aceitá-lo ou rejeitá-lo depende, para cada um de nós, a glória eterna ou a ruína eterna, o céu ou o inferno; ou um, ou outro.

A mais importante decisão que alguém possa ser chamado a tomar é a atitude de resolver, em seu coração, uma vez para sempre, a questão de sua atitude para com Cristo. Disso depende tudo.

É uma coisa gloriosa ser crente, o mais elevado privilégio da raça humana. Aceitar a Cristo como Salvador, Senhor e Mestre, porfiar sincera e devotamente por segui-lo no caminho da vida que ele ensinou, é, certa e decididamente, o modo mais razoável e mais satisfatório de vida. Isso significa paz, paz de espírito, contentamento de coração, perdão, felicidade, esperança, vida, vida aqui e agora, vida abundante, VIDA QUE NUNCA FINDARÁ.

Como pode alguém ser tão cego e insensato, ao ponto de prosseguir pela vida a fora e encarar a morte sem a esperança cristã? Fora de Cristo, que é que existe, que é que pode existir, seja quanto a este mundo, seja quanto ao outro, para que valha a pena viver? Todos havemos de morrer. Para que dissimular, com risos, este fato? Vê-se que convém a todo ser humano receber a Cristo de braços abertos, e considerar o mais altaneiro privilégio da vida, o de usar o nome de cristão.

Em última análise, a coisa mais cara e mais doce da vida é ter consciência, no mais recôndito de nossos íntimos motivos, de que vivemos para Cristo, e de que por mais débeis que sejam os nossos esforços, afadigarmo-nos em nossa lida diária na esperança de que, na última etapa, teremos feito alguma coisa para depositar, em gratidão e adoração humilde, aos seus pés como oferta.

(Extraído de “MANUAL BÍBLICO: um comentário abreviado da Bíblia”. Henry H. Halley. São Paulo: Vida Nova, 1994, 4 ed., pgs. 20-21)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Bíblia e Literatura


Um dos pontos mais controversos no debate sobre a relação entre a Bíblia e a literatura é a questão da autoria. Tanto judeus – no caso da Torah – quanto cristãos alegam que a Bíblia tenha sido inspirada por Deus, alegação esta que o próprio texto sagrado afirma e corrobora quando fala de si mesmo. Os cristãos são ainda mais ousados do que os judeus nesse ponto quando afirmam que uma das provas de que a Bíblia é inspirada por Deus é o fato de que ela gira toda em torno de um personagem central – Jesus Cristo é tido como a chave que unifica o Antigo Testamento (AT) e o Novo Testamento (NT) para além das suas diferenças de conteúdo e de imagem de Deus. Ele é o cumprimento vivo das profecias do AT, em que é mais conhecido como Messias. Alguns judeus compreenderam tão bem esse ponto do AT que continuam esperando pelo Prometido até os dias de hoje. Essa é a diferença básica entre cristãos e judeus. Os primeiros reconhecem Jesus Cristo como sendo quem ele alegava ser, o Filho de Deus, sua encarnação, para escândalo de grande parte dos judeus.

O fato de a Bíblia ter sido escrita ao longo de centenas de anos por diversas mãos – a maioria delas anônimas – com diferentes backgrounds profissionais e geográficos é considerado motivo para as suspeitas daqueles que só creem no que tocam ou no que leva o carimbo da Ciência. A Bíblia foi escrita por 40 pessoas, ao longo de 16 séculos, embora até nisso haja controvérsias, uma vez que alguns livros são de autoria e datação incerta.

Usualmente, pessoas assim também resistem ao novo paradigma da incerteza em toda a ciência e/ou desconfiam da validade da literatura oral e do senso comum em geral. Querem muitas vezes com isso evitar se misturar com o povo e seu conhecimento de "segundo calão".

Já aqueles que se dão ao trabalho de uma leitura mais atenta da Bíblia notarão a estranha coerência interna que torna esse livro tão misterioso, fascinante e poderoso. Muitas vezes essa coesão não pode ser vista logo na primeira leitura, o que, por sua vez, faz com que até aqueles que dificilmente leriam um livro mais de uma vez, não resistam a voltar a abri-lo. E quem decide estudá-lo para valer, de maneira, por assim dizer, "científica", notará que nem tudo são mistérios em torno desse livro. Não raro, estes também acabam por se render à forte e assustadora intuição de que ela seja fruto de uma só mente: Deus.

É claro que não temos pretensão alguma aqui de querer identificar o estilo literário de Deus, como se pode identificar o de um pintor ou de um músico, o que não deixa de ser um excelente exercício. Se até Tomás de Aquino se dizia incapaz de "esgotar sequer a essência de uma mosca", uma das menores criaturas da natureza, imagine a de Deus! A face divina e a maneira de Deus agir são coisas ao mesmo tempo tão distantes e tão próximas de nós que vivem escapando por entre os dedos das mãos.

O sentimento que se tem diante do estilo de Deus é muito parecido com o que nos invade no trabalho de crítica literária quando se quer conhecer mais a fundo determinado autor "real" ou determinada língua, particularmente quando se trata de poesia ou literatura imaginativa em geral (mitos, contos de fada, provérbios, etc.) Esse sentimento de maior ou menor familiaridade ou estranhamento explica, inclusive, porque não é preciso ser especialista para desenvolver um certa intimidade com esse inexaurível Autor. Nós aprendemos a conhecê-lo como conhecemos certas pessoas do nosso cotidiano: pela postura, tom de voz, olhar, etc. – e, no caso, por meio da literatura e da ficção. Ou seja, para entendermos o jeito de ser de alguém, o pressuposto necessário é a convivência e a linguagem comum, o nível de interlocução, isto é, de comunicação, que temos com ela. Na literatura, à semelhança do que acontece quando nos vemos deparados com a Bíblia, dá-se algo parecido. De tanto viver com certos autores e estilos, nós conseguimos, com grande chance de acerto, reconhecer ou discernir certas atitudes que são típicas a eles, e outras que destoam definitivamente.

No entanto, apesar de sermos capazes de reconhecer o estilo dos personagens criados por um autor e, por reflexo também, o do próprio autor, que se espelha de forma mais ou menos nítida em todos os personagens, não devemos recair no reducionismo, achando que podemos "classificá-los" de alguma forma predeterminada. Pois todo personagem é, antes de ser produto da imaginação humana, proveniente em última instância do Criador que a todos "inventou" imprimindo-lhes a Sua Imagem. Essa pode ser uma boa explicação para o poder de influência desse livro tão sui generis, a Bíblia, para além dos seus mistérios. E se nós já cremos na Bíblia como Palavra inspirada pelo próprio Deus, quanto mais não a estaremos apreciando quando a reconhecermos, além disso, também como excelente obra literária que é e que nos remete a outras obras muito saudáveis como, por exemplo, “As Crônicas de Nárnia” e outros tantos clássicos da literatura mundial.

É claro que não podemos reduzir a Bíblia à literatura ou submetê-la às rígidas classificações de gênero, mesmo porque ela não cabe em nenhum deles, ao mesmo tempo em que cabe em todos eles. Mas acreditamos ter com essa aproximação entre a literatura e o estudo da Bíblia, ter dado uma vaga noção da riqueza desse diálogo e do estilo surpreendente que se encontra por trás de sua infinidade de autores, que diz respeito a toda a humanidade. Ou pelo menos, esperamos ter contribuído para melhorar a imagem que fazemos daquele de quem somos imagem.

Autor: Gabriele Greggersen

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Bíblia é a Palavra de Deus


Sem levar em conta qualquer teoria sobre a inspiração da Bíblia, ou qualquer ideia sobre como foi que seus livros chegaram à forma atual, ou até onde o texto bíblico sofreu às mãos dos redatores e copistas, ao ser transmitido, abstraindo-nos da questão de saber o quanto é que se deve interpretar ao pé da letra e o quanto é que se deve aceitar como tendo sentido figurado, ou qual parte da Bíblia é história, e qual é poesia, se simplesmente admitirmos que a Bíblia é exatamente aquilo que se apresenta ser, se estudarmos seus livros para lhes conhecer o conteúdo, acharemos nela uma unidade de pensamento a indicar que uma Mente única inspirou a escrita e a compilação de toda a série dos seus livros, que ela traz em si o sinete do seu Autor, que, é em sentido único e distintivo, A PALAVRA DE DEUS.

Há uma opinião moderna, sustentada mesmo em larga escala em certos círculos intelectuais, de que a Bíblia é uma espécie de história secular do esforço do homem por encontrar Deus: um registro da sua experiência no esforço por alcançá-lo, melhorando gradativamente suas ideias a respeito da Divindade, baseado nas experiências das gerações precedentes. Naquelas passagens, tão abundantes na Bíblia, onde se diz que Deus falou, de acordo com esta opinião Deus não falou realmente, mas os homens expressaram suas ideias em linguagem que diziam ser a linguagem de Deus, quando, na realidade isso era apenas o que imaginavam a respeito de Deus. A Bíblia, por essa forma, seria nivelada aos outros livros, mas como obra humana, fingindo ser obra de Deus.

Rejeitamos de todo essa ideia e com repugnância. Cremos que a Bíblia é, não o relato do homem sobre seus esforços por encontrar a Deus, porém a narração do esforço de Deus por se revelar ao homem: é o registro do próprio Deus, quanto ao seu trato com os homens, na revelação que de si mesmo fez à raça humana; é a vontade revelada do Criador do homem, transmitida ao homem pelo próprio Criador, para lhe servir de instrução e direção nos caminhos da vida.

Os livros da Bíblia foram compostos por autores humanos, nem se sabendo quais foram alguns deles. Tampouco se conhece como foi exatamente que Deus dirigiu esses autores no ato de escrever. Contudo, afirma-se que Deus os dirigiu e os livros da Bíblia forçosamente são exatamente o que Deus quis que fossem.

Há uma diferença entre a Bíblia e todos os outros livros. Os escritores em geral podem orar a Deus que os ajude e dirija, e Deus realmente os ajuda e dirige. Há no mundo inteiro muitos livros bons, a cujos autores, sem dúvida, Deus ajudou a escrever. Mas ainda assim, os autores mais piedosos dificilmente teriam a presunção de alegar que Deus escreveu seus livros. Pois essa autoria divina é atribuída à Biblia. Deus mesmo supervisionou, dirigiu e ditou a escrita dos seus livros, tendo sob seu completo controle os autores humanos, e de tal modo a redação é de Deus. A Bílbia é a PALAVRA DE DEUS num sentido em que nenhum outro livro no mundo a pode ser.

Pode acontecer que alguma expressões bíblicas sejam “formas antigas de exprimir pensamentos”, para transmitir ideias que hoje expressaríamos de outro modo, porque foram vazada em linguagem de tempos remotos. Mas ainda assim, a Bíblia encerra em si precisamente aquilo que Deus quer que a humanidade saiba, na forma exata pela qual Ele quer que nós o conheçamos. E até ao fim dos tempos o precioso velho livro será a única resposta às indagações da humanidade na busca de Deus.

A Bíblia, composta por muitos autores, através de muitos séculos, sendo contudo, UM LIVRO só, é, em si mesma, o milagre proeminente dos séculos, que traz em relevo sua própria evidência de ser de origem sobre-humana.

TODA PESSOA deve amar a Bíblia. Toda gente deve lê-la assiduamente. Todos devem esforçar-se por viver seus ensinos. A Bíblia precisa ocupar o centro da vida e da atuação de cada igreja e de cada púlpito.

O ÚNICO MISTER DO PÚLPITO É O ENSINO SIMPLES E EXPOSITIVO DA PALAVRA DE DEUS.

(Extraído de “MANUAL BÍBLICO: um comentário abreviado da Bíblia”. Henry H. Halley. São Paulo: Vida Nova, 1994, 4 ed., pgs. 22-23)