segunda-feira, 2 de junho de 2014

História da Origem da Bíblia


Pré-história

Os vestígios mais antigos de Israel são aldeias do século XIII a.C. na região montanhosa da Palestina.

Associações de clãs tinham colonizado novas regiões, e por isso nomes de lugares e de tribos podem, por vezes, ser intercambiáveis na Bíblia, como, p.ex., Belém e Efratá. Também alguns conceitos bíblicos comprovam que os laços entre clãs permaneciam muito significativos. Algumas imagens bíblicas, p.ex., apresentam Deus como o “parente” forte, cujo dever é ajudar.

As tribos se formaram a partir de grupos de refugiados que se uniam contra outros grupos que buscavam novas terras. No começo, essas uniões eram temporárias e emergenciais, formando uma comunidade que se chamou “povo de Javé” (mais precisamente “parentela de Javé”) e “Israel”.

No século X a.C., incursões de filisteus forçaram as tribos a se organizarem de forma mais permanente, reconhecendo a autoridade de um rei. Somente então Israel passou a ter contato com a cultura do antigo oriente, que já possuía escrita. Funcionários públicos e sacerdotes tornaram-se portadores das tradições escritas.

Os profetas defenderam o ideal da “parentela de Javé” contra o Estado. As complicações escritas de suas palavras só apareceram a partir do momento em que já era possível prever o fim de Israel como nação.

A origem das compilações

O declínio dos reinos de Israel e Judá (respectivamente em 722 e 587 a.C.) impulsionou o registro escrito das tradições orais e a sua compilação. Os escritos desse povo, que desde então passou a viver disperso, se tornaram sua pátria espiritual.

Provavelmente as tradições de Israel teriam se perdido de qualquer forma, não tivessem os persas conquistado um grande império no qual povos pequenos, como era o caso de Israel, podiam viver segundo suas próprias leis. Em 515 a.C., o templo de Jerusalém foi reconstruído. Os escritos sagrados dos judeus passaram a ser reunidos e guardados aqui.

Origem do cânon

Em 398 a.C., o sacerdote Esdras, encarregado pelos persas, levou para Jerusalém um escrito proveniente das escolas judaicas na Babilônia e promulgou-a lá como sendo a “lei” dada por Deus a Israel. A narração deste acontecimento (Neemias 8) é a narrativa da formação do judaísmo; ela explica porque a escritura sagrada é, para o povo judeu, a torá, “instrução de vida”.

Logo se manifestaram opiniões divergentes sobre quais livros pertenciam à Escritura Sagrada. A versão mais extensa é a tradução grega, produzida no Egito a partir do século III a.C.

Seu nome, Septuaginta (latim: “setenta”), se explica por uma tradição: 72 tradutores chegaram à mesma redação, independentemente uns dos outros. Isso teria sido como um sinal de que a tradução tinha sido inspirada por Deus.

O cânon hebraico dos livros bíblicos, aceito definitivamente até hoje pelo judaísmo, se formou em Judá. No começo, eram os sacerdotes do templo que cuidavam das escrituras sagradas. No entanto, quando a família real dos asmoneus reivindicou para si o sacerdócio (152 a.C.), o que atentava contra as leis bíblicas, os essênios e os fariseus se separaram do partido dos sacerdotes do templo, os saduceus, alegando que seriam mais capazes do que estes para cuidar dos textos sagrados. Historicamente, impõe-se a doutrina dos fariseus de que todos os judeus deveriam viver de forma sacerdotal, por terem sido chamados para guardar a Escritura.

Formação de um cânon duplo

No ano 63 a.C., os romanos ocuparam Judá. Levantou-se uma rebelião contra eles da parte de grupos messiânicos cujo entendimento das escrituras sagradas os levava a esperar por um novo rei de Judá: o Messias. Roma pensava que a destruição do foco central do povo judeu – Jerusalém e o templo – levaria à aniquilação definitiva deste povo (ano 70).

As várias correntes judaicas realmente desapareceram; mas o judaísmo sobreviveu na forma ensinada pelos fariseus, segundo a qual o centro da vida judaica está nas escrituras e nas ordenanças por elas ensinadas. A interpretação farisaica das escrituras foi propagada pelos rabinos (hebraico: “mestre”). No século III, eles estabeleceram definitivamente a abrangência e a estrutura da Bíblia judaica.

O grupo dos discípulos de Jesus, ao qual pertenciam representantes de várias correntes judaicas, entrementes dera origem a comunidades cristãs, inicialmente dentro do judaísmo. Porém, já no fim do primeiro século o cristianismo judaico havia perdido sua relevância; cristãos gentios, que falavam grego, determinaram o desenvolvimento posterior da igreja. Por isso, os conceitos cristãos de língua grega a respeito da abrangência e da estrutura da Bíblia permaneceram vivos no cristianismo. No século II, formou-se uma coletânea de escritos cristãos seguindo esse modelo da Escritura Sagrada herdada do judaísmo; ela tornou-se a segunda parte da Bíblia cristã, conhecida como “Novo Testamento”. A primeira parte desta Bíblia se compõe de escritos sagrados judaicos, conservados integralmente pelo cristianismo na forma do “Antigo Testamento”, ainda que algumas das regras lá apresentadas não sejam praticadas pelos cristãos.

É tarefa da exegese bíblica cristã explicar como também esses textos são Palavra de Deus para os cristãos.


Fonte: OHLER, Annemarie; MENZEL, Tom; LOHNDOF, Jan-martin. Atlas da Bíblia. São Paulo: Hagnos, 2013. 495 p.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O legado do Antigo Testamento na formação da Igreja


A Igreja é criação de Cristo e remonta à época de Jesus de Nazaré, porém ela tem raízes no Antigo Testamento e não pode ser bem compreendida sem essa base no passado. Isso é teologicamente verdadeiro, porque o conceito de povo de Deus, obviamente, já existia no período do Antigo Testamento, assim como no Novo.

É verdadeiro também no aspecto linguístico, que, uma vez que a palavra grega para igreja (ekklesia) aparece muitas vezes em relação a Israel na tradução grega do Antigo Testamento (a chamada Septuaginta), ela se tornou conhecida dos escritores do Novo Testamento. As passagens em que ekklesia aparece podem, supostamente, ter exercido uma influência no pensamento dos escritores do Novo Testamento.

Na Septuaginta, o termo ekklesia, geralmente, traduz o termo hebraico qhl, que, assim como a palavra grega, refere-se àqueles que são congregados por Deus como Sua possessão especial.

Isso diz respeito às primeiras aparições dessa palavra: com a frase no dia da congregação (Dt 9.10b; 10.4; 18.16), o termo faz menção à nação de Israel congregada no monte Sinai. Esse é também seu significado no Salmo 22, no qual o termo congregação volta a aparecer (v.22,25), bem como é a ideia que está por trás da referência de Estevão à congregação em seu sermão no livro de Atos: "Este é o que esteve entre a congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com nossos pais" (At 7.38a).

Nessas passagens e em outras, o elemento-chave é o chamado de Deus, seguido da resposta dos que são convocados e do pacto solene do Senhor para abençoá-los – para ser seu Deus, eles serem Seu povo.

Podemos observar uma ilustração desses elementos no chamado de Abraão, com quem a congregação do Antigo Testamento começou. Somos informados de que o Senhor apareceu a Abraão dizendo:

Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.
Gênesis 12.1,2


Nessa maneira, a iniciativa foi toda de Deus, uma vez que foi Ele quem procurou e chamou Abraão, e não o contrário. De novo, vemos o começo da promessa ou do pacto:


Então, disse a Abrão: Saibas, decerto, que peregrina será a tua semente em terra que não é sua; e servi-los-á e afligi-lo-ão quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a gente à qual servirão, e depois sairão com grande fazenda. Naquele mesmo dia, fez o Senhor uma concerto com Abrão, dizendo: À tua semente tenho dado esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates.
Gênesis 15.13,14,18

Quanto a mim, eis o meu concerto contigo é, e serás o pai de uma multidão de nações. E estabelecerei o meu concerto entre mim e ti e a tua semente depois de ti em suas gerações, por concerto perpétuo, para te ser a ti por Deus e à tua semente depois de ti. E te darei a ti e à tua semente depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em perpétua possessão, e ser-lhes-ei o seu Deus.
Gênesis 17.4,7,8

A resposta de Abraão foi crer em Deus (Gn 15.6) e adorá-lo (Gn 12.8). Percebemos o mesmo modelo no relacionamento de Deus com Isaque, o filho de Abraão, e com Jacó, seu neto. Mais tarde, houve um chamado especial para os descendentes do patriarca, quando eram escravos no Egito. Naquela ocasião, Deus disse a Moisés:


E disse o Senhor: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores. Portanto, desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e larga, a uma terra que mana leite e mel; ao lugar do cananeu, e do hebreu, e do amorreu, e do ferezeu, e do heveu, e do jebuseu.
Êxodo 3.7,8
Finalmente, encontramos uma chamada e promessa a Israel, seguidas do cativeiro babilônico:

Portanto, eis que dias vêm, diz o SENHOR, em que nunca mais se dirá: Vive o Senhor, que fez subir os filhos da terra do Egito. Mas: vive o SENHOR, que fez subir os filhos de Israel da terra do Norte e de todas as terras para onde os tinha lançado; porque eu os farei voltar à sua terra, que dei a seus pais.
Jeremias 16.14,15
Em cada uma dessas passagens, há a criação de uma ekklesia – uma congregação daqueles que são chamados para se tornar um povo especial para Deus, longe de um relacionamento normal com o mundo. Esse chamado é seguido de promessas especiais e tem como resposta a fé, a adoração, o amor e a obediência da parte dos que aceitam o Senhor.

Fonte: BOICE, James Montgomery. Fundamentos da fé cristã: um manual de teologia ao alcance de todos. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2011. 632 páginas

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cidadania Cristã


Os cristãos que vivem no mundo de hoje têm tanto a responsabilidade de serem fiéis a Deus quanto a responsabilidade de serem cidadãos produtivos na sociedade. Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego são bons exemplos de como é possível conseguir esse equilíbrio.

A maior prioridade para todo cristão é viver dentro da vontade de Deus. As leis sociais criam uma estrutura prática que transmite as ideias de uma sociedade sobre o que é mutuamente benéfico para todos os cidadãos. Os cristãos devem estar comprometidos em valorizar e obedecer esse consenso moral. Mas além disso, o cristão tem uma voz de maior autoridade a qual deve obedecer.

Os cristãos podem e devem contribuir para a sociedade. Daniel e seus amigos tornaram-se altos oficiais do governo e serviram da melhor maneira que lhes foi possível. Mas se a sociedade exigia alianças ou ações que interferiam com o seu serviço a Deus e seu comprometimento de viver dentro da vontade dele, eles silenciosamente desobedeciam essas leis humanas.

Assim, os cristãos recebem ordens superiores. O mundo precisa de cristãos que expressem suas opiniões e tomem uma posição em relação a aspectos da sociedade. Jesus chama sua igreja para ser o sal do mundo, o que envolve trabalhar como um agente purificante e que dá sabor (Mt 5.13). Como luz do mundo, os cristãos devem refletir e proclamar a salvação que Cristo morreu para oferecer (Mt 5:14-16).


Referência: ARNOLD, Bill T.; BEYER, Bryan E.. Descobrindo o Antigo Testamento: Uma perspectiva cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Evidência da veracidade de nosso Cristianismo

[Jonathan Edwards]

"Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus" (I Jo. 2:4-5).


A prática cristã aperfeiçoa fé e amor. São como uma semente. A semente não chega à perfeição por ser plantada na terra. Nem por desenvolver raízes e brotos, ou por sair do chão, nem por desenvolver folhas e botões. Entretanto, quando produz frutos bons e maduros, chegou à perfeição - completou sua natureza. O mesmo ocorre com fé e amor e todos os outros dons. Chegam à perfeição em frutos bons e maduros da prática cristã. A prática, então, deve ser a melhor evidência de que esses dons existem.

As Escrituras dão mais ênfase à pratica do que a qualquer outra evidência de salvação. Espero que isso esteja claro agora. Temos que nos manter nessa ênfase. É perigoso dar importância a coisas que a Bíblia não endossa. Teremos perdido nosso equilíbrio bíblico se dermos maior importância aos sentimentos e experiências que não se expressem em obediência prática. Deus sabe o que é melhor para nós, e tem salientado certas coisas porque precisam ser salientadas. Se ignorarmos a ênfase clara, de Deus, na prática cristã, e insistirmos em outras coisas como testes de sinceridade, estamos no caminho da ilusão e hipocrisia.

As Escrituras falam muito claramente sobre a prática cristã como o verdadeiro teste de sinceridade. Não é como se isso fosse alguma doutrina obscura, somente mencionada algumas vezes em passagens difíceis. Suponhamos que Deus desse uma revelação nova hoje, e declarasse: "Conhecereis meus discípulos por isso, sabereis que são da verdade por isso, sabereis que são Meus por isso" - e então desse uma marca ou sinal especial. Não veríamos nisso um teste claro e enfático de sinceridade e salvação? Bem, isto é o que tem ocorrido! Deus tem falado dos céus - na Bíblia! Ele nos disse muitas e muitas vezes que a prática cristã é a prova mais alta e melhor da fé verdadeira. Vejam como Cristo repete isso no texto do capítulo 14 do Evangelho de João: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (v. 15). "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama" (v. 21). "Se alguém me ama, guardará a minha palavra" (v. 23). "Quem não me ama, não guarda as minhas palavras" (v. 24). E no capítulo 15: "Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos" (v. 8). "Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando" (v. 14). E encontramos a mesma coisa em I João: "Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos" (2:3). "Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele" (2:5). "Não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. E nisto conheceremos que somos da verdade" (3:18-9). Acaso não está claro?

Deus nos julgará por nossa prática no Dia do Juízo. Ele não pedirá que demos nosso testemunho pessoal. Não examinará nossas experiências religiosas. A evidência pela qual o Juiz nos aceitará ou rejeitará será a nossa prática. Essa evidência, é claro, não será para o benefício de Deus. Ele conhece nossos corações. Mesmo assim, Ele exporá a evidência de nossa prática por causa da natureza aberta e pública do julgamento final. "Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo para que cada um receba segundo o bem ou mal que tiver feito por meio do corpo" (II Cor. 5:10). Se a nossa prática é a evidência decisiva que Deus usará no Dia do Juízo, é o teste que deveríamos aplicar a nós mesmos aqui e agora.

Conforme esses argumentos, penso que está claro que a prática cristã (como a defini) é a melhor evidência, para nós mesmos e para os outros, que somos verdadeiros cristãos.

http://www.jonathanedwards.com.br/

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por que alguns acham a Bíblia difícil


[A.W.Tozer]

Ninguém pode negar que algumas pessoas acham a Bíblia difícil. Os testemunhos quanto às dificuldades encontradas na leitura bíblica são inúmeros e não podem ser desconsiderados levianamente.

Na experiência humana existe geralmente um complexo de motivos e não um só motivo para tudo; o mesmo acontece com as dificuldades que encontramos na Bíblia. Não se pode dar uma resposta instantânea para a pergunta: Por que a Bíblia é difícil de entender? Qualquer resposta irrefletida tem toda probabilidade de estar errada. O problema não é singular, mas plural, e por esta razão o esforço de encontrar para ele uma solução única será frustrado.

Apesar desse raciocínio, ouso dar uma resposta curta para a pergunta, e embora esta não responda a tudo, contém boa parte da solução do problema envolvido numa questão assim complexa. Acredito que achamos a Bíblia difícil porque tentamos lê-la como leríamos qualquer outro livro, mas ela não se assemelha a nenhum outro livro.

A Bíblia não é dirigida a qualquer um. Sua mensagem tem como alvo alguns escolhidos. Quer esses poucos sejam escolhidos por Deus num ato soberano de eleição ou por corresponderem a determinadas qualificações, deixo para cada um decidir como possa, sabendo perfeitamente que sua decisão será determinada pelas suas crenças básicas sobre assuntos tais como predestinação, livre-arbítrio, os decretos eternos e outras doutrinas relativas. Mas o que quer que tenha tido lugar na eternidade, o que acontece no tempo fica evidente: alguns creem e outros não; alguns são moralmente receptivos e outros não; alguns têm capacidade espiritual e outros não. São para os primeiros que a Bíblia foi escrita, os demais irão lê-la inutilmente.

Sei que alguns leitores vão apresentar objeções vigorosas neste ponto, e as razões para elas são fáceis de descobrir. O cristianismo de hoje se concentra no homem e não em Deus. O Senhor precisa aguardar com toda paciência e até mesmo respeito, sujeitando-se aos caprichos humanos. A imagem de Deus aceita pelo povo é a de um Pai aflito, esforçando-se em desespero amargurado para fazer com que as pessoas aceitem um Salvador de que elas não sentem necessidade e em quem têm pouco interesse. A fim de persuadir essas almas auto-suficientes a responderem às suas ofertas generosas, Deus fará quase tudo, usando até mesmo métodos de venda especiais e lhes falando da maneira mais íntima possível. Este ponto de vista é, naturalmente, um tipo de religião romantizada que consegue fazer do homem a estrela do espetáculo, embora usando com freqüência termos elogiosos e até mesmo embaraçosos em relação a Deus.

A ideia de que a Bíblia e dirigida a todos criou confusão dentro e fora da igreja. O esforço de aplicar os ensinamentos contidos no Sermão do Monte às nações não-regeneradas do mundo é um exemplo disto. Os tribunais e poderes militares da terra são instados a seguirem os ensinos de Cristo, algo evidentemente inviável para eles. Citar as palavras de Cristo como diretriz para policiais, juízes e militares é interpretar absolutamente errado essas palavras e revelar completa falta de compreensão dos propósitos da revelação divina. O convite gracioso de Cristo é estendido aos filhos da graça e não às nações gentias cujos símbolos são o leão, a águia, o dragão e o urso.

Deus não só dirige suas palavras de verdade aos que têm capacidade para recebê-las, como também as oculta aos demais. O pregador faz uso de histórias para esclarecer a verdade, nosso Senhor usou-as muitas vezes para ocultá-la. As parábolas de Cristo foram o exato oposto da moderna "ilustração" que serve para esclarecer; as parábolas eram "ditos obscuros" e Cristo afirmou que fazia uso delas algumas vezes a fim de que seus discípulos pudessem compreender, mas não os inimigos. (Veja Mateus 13:10-17.) Assim como a coluna de fogo iluminava Israel, mas servia para ocultá-los aos olhos dos egípcios, as palavras do Senhor brilham no coração do seu povo embora deixem o incrédulo presunçoso nas trevas da noite moral.

O poder salvador da Palavra fica reservado para aqueles a quem ele se destina. O segredo do Senhor está com aqueles que O temem. O coração impenitente não descobrirá na Bíblia senão um esqueleto de fatos sem carne, vida, ou fôlego de vida. Shakespeare pode ser apreciado sem necessidade de arrependimento; podemos entender Platão sem acreditar numa palavra que ele diz; mas a penitência e a humildade juntamente com a fé e a obediência são necessárias a fim de que as Escrituras possam ser compreendidas corretamente.

Nos assuntos naturais, a fé segue-se à evidência, sendo impossível sem ela, mas no reino do espírito, ela precede o entendimento; e não se segue a ele. O homem natural precisa saber a fim de acreditar; o homem espiritual precisa crer para vir a conhecer. A fé que salva não é uma conclusão extraída da evidência; mas uma coisa moral, uma coisa do espírito, uma infusão sobrenatural de confiança em Jesus Cristo, um perfeito dom de Deus.

A fé salvadora se baseia na Pessoa de Cristo; ela leva imediatamente a uma rendição do nosso ser total a Cristo, cujo ato é impossível ao homem natural. Crer corretamente é um milagre comparável ao da ressurreição de Lázaro sob a ordem de Cristo. A Bíblia é um livro sobrenatural e só pode ser entendido com ajuda sobrenatural.


TOZER, Aiden Wilson. O melhor de A.W.Tozer: textos inesquecíveis de um grande pregador. Editora Mundo Cristão, 2007



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Um novo tipo de cristão


[Josemar Bessa]

Há pregadores que adoram frases do tipo: “Todo ponto de vista é a vista de um ponto” – O que eles desejam ensinar com isso? Brian McLaren resume essa mentalidade na introdução ao seu livro A New Type of Christian ("Um Novo Tipo de Cristão"):

“Dirijo meu automóvel e ouço a estação de rádio cristã, algo que minha esposa sempre diz que devo parar de fazer ("porque isso só deixa você nervoso", diz ela). Ali, ouço um pregador após outro se mostrando absolutamente seguro de suas repostas, que são até à prova de bombardeio, e das suas interpretações bíblicas infalíveis... E, quanto mais seguro ele parece, tanto menos desejo ser um cristão, porque neste outro lado, distante do microfone, das antenas e do locutor, a vida não é tão simples assim; as respostas não são tão claras assim; e nada é tão seguro assim”.


Deste modo, o pós-modernismo "evangélico" chegou a transformar em virtude sublime toda dúvida, incerteza e hesitação a respeito de quase todos os ensinos das Escrituras. Convicções fortes, afirmadas com clareza, são invariavelmente rotuladas como "arrogância" por aqueles que favorecem o diálogo pós-modernista.

Cristo sempre nos guia na Verdade, e Ele nos faz viver o evangelho e proclamá-lo fielmente, não como um nariz de cera que pode ser moldado por cada um segundo suas conveniências, e é assim que Ele nos guardará de“tropeçar, e nos apresentará diante da Sua glória sem mácula e com grande alegria” (Judas 24). Ambivalência é como uma corda que, se não verificada, torna-se uma algema que prende o homem à heresia. Ambivalência é o câncer desta geração!

O relativismo é uma revolta contra a realidade objetiva de Deus. A mera existência de Deus cria a possibilidade da verdade absoluta. Deus é a norma suprema e final para todas as alegações de verdade. Quem ele é, o que ele quer, o que ele diz, é o padrão externo e objetivo para se medir todas as coisas. Se o mundo acha isso relevante ou atrasado, isso não faz a menor diferença. E sua revelação é clara, mas jogamos fumaça sobre ela quando queremos agradar ao mundo mostrando que tudo não passa de pontos de vistas diferentes. Que a verdade é subjetiva. Quando o relativismo diz que não existe um padrão de verdade e falsidade que é válida para todos, ele fala como um ateu. Ele comete traição contra Deus.

O relativismo é uma rebelião generalizada contra o próprio conceito de direito divino. Portanto, é a rebelião mais profunda contra Deus. É uma traição que é pior do que a revolta total, porque é desonesto. Continua pregando um "evangelho" que na realidade não é verdade absoluta externa a nós. Era melhor dizer que não crê ser ele a verdade e pronto. É realmente pior de que uma revolta total. É realmente desonesto - pois devia dizer na face de Deus "A tua palavra é falsa". Dizer: "A tua palavra é ambígua..." - dizer: "Não há tal coisa como uma palavra universalmente objetiva revelado por Deus" – Mas não usa dessa clareza honesta, e então deixa o que chama de "verdade" como algo aberto para cada homem moldar as coisas segundo seu coração enganoso. Isso é traição.

Ah! A loucura das mentes descuidadas abertas para tudo e caindo por nada, já dizia alguém. Todas as pessoas que são superficialmente “ortodoxas”, que dizem que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”, transformam a verdade das Escrituras em mentira.

Essa abordagem tem sido mencionada, por alguns, como "uma hermenêutica da humildade" — como se fosse inerentemente orgulhoso demais para um pregador o imaginar que ele sabe aquilo que Deus disse a respeito de alguma coisa. É claro que essa negação de toda a certeza não tem qualquer indício de verdadeira humildade. De fato é arrogância, arrogância contra Deus. De fato, isto é realmente uma forma arrogante de incredulidade, arraigada na recusa imprudente de reconhecer que Deus foi suficientemente claro na revelação que fez de Si mesmo às suas criaturas.

Essa atitude é uma forma blasfema de arrogância e, quando ela governa até a maneira como alguém maneja a Palavra de Deus, se torna outra expressão de rebeldia maligna contra a autoridade de Cristo. Era melhor dizer abertamente: eu amo a mente do mundo (minha própria mente), não a de Deus.

Quando a verdade objetiva desaparece na névoa do relativismo, não somos mais um humilde servo para a proclamação preciosa verdade. Um homem assim joga fora o jugo da servidão e assume um poder próprio. Ele não se submete à realidade objetiva externa, ele cria a sua própria "realidade". Ele não serve mais para mostrar a verdade. Ele passa ser a fonte de autoridade que define o que é a verdade. E todos alegremente aplaudem, pois cada um pode ter a “sua” própria “verdade”, já que ““todo ponto de vista é a vista de um ponto”

Devemos tomar o jugo da Verdade revelada mesmo que a cultura à nossa volta a ache loucura e escândalo, mesmo que ela não se adapte para se tornar “relevante” para o mundo. Todos os amantes da verdade são humildes, mas apesar de tentar vender isso desonestamente, o relativismo não é uma postura humilde, mas um manto de orgulho, altivez contra Deus, uma heresia destruidora!




terça-feira, 8 de abril de 2014

Disciplina na vida cristã: um conceito a ser resgatado




[por Alderi Souza de Matos]

A mentalidade hedonista e utilitária do tempo presente não vê com bons olhos a ideia de disciplina. No entanto, trata-se de uma atitude e uma prática fundamental para a vida cristã. Na Bíblia, encontramos dois tipos de disciplina – a de outrem e a de si mesmo. Na primeira acepção, trata-se das medidas impostas pelos pais aos filhos ou pela igreja aos seus fiéis no sentido de corrigir comportamentos impróprios. No segundo sentido, o que se tem em mente é a autodisciplina, o autocontrole, como parte de uma vida cristã séria e comprometida.

Em grego, o termo relacionado com esse segundo aspecto da disciplina é o verbo “askeo”, no infinitivo “askein”, que significa “exercitar-se”, “esforçar-se”. As palavras cognatas são os substantivos “asketes” (aquele que se exercita, atleta) e “askesis” (exercício, esforço). Essa é a origem dos termos ascese, asceta e ascetismo, que têm a sua própria história. Curiosamente, dos vocábulos gregos acima, só o verbo aparece no Novo Testamento, e mesmo assim uma única vez, em Atos 24.16, onde o apóstolo Paulo diz: “Por isso, também me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens”. 

Todavia, se o termo é raro, a ideia correspondente é comum nas páginas bíblicas. Uma passagem clássica é aquela em que Paulo descreve sua vida cristã utilizando diversas palavras da vida esportiva do mundo greco-romano: “Todo atleta em tudo se domina, aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1Co 9.25-27). Em uma passagem paralela, ele recomenda a Timóteo que se exercite pessoalmente na piedade (1Tm 4.7b). Os verbos utilizados são outros (“agonizomai”, “gymnazo”), mas o conceito é o mesmo. O cristão deve ser um atleta de Cristo. A vida cristã exige esforço, autodisciplina.

No terceiro século, surgiu uma prática que não fazia parte do cristianismo original, a ascese ou ascetismo, no sentido de uma autodisciplina rigorosa. Essa conduta foi entendida principalmente em termos de abstinência de prazeres físicos, em especial a sexualidade (castidade) e a posse de bens (pobreza). Se é verdade que Jesus viveu dessa maneira, em nenhum lugar ele estabeleceu uma lei nesse sentido para os seus seguidores. O Novo Testamento vê com naturalidade o casamento dos ministros de Deus (Mt 8.14; 1Co 9.5). Paulo questiona que o tratamento severo do corpo seja benéfico para a vida espiritual (Cl 2.23). Além disso, quando o Novo Testamento prescreve elevados padrões de conduta moral, fica claro que isso é para todos os cristãos, e não para um grupo seleto (Rm 8.13; 13.13s; 1Ts 4.3-7).

De qualquer modo, as palavras de Jesus ao jovem rico impressionaram fortemente as primeiras gerações de cristãos: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (Mt 19.21). A expressão inicial, que aparece somente em Mateus, passou a ser interpretada no sentido de que havia dois tipos de cristãos – os que se contentavam com uma vida medíocre e os que aspiravam à perfeição. Desse entendimento resultou o monasticismo, a chamada vida consagrada. Essa instituição deu grande valor à autodisciplina: todo monge fazia o tríplice voto de pobreza, castidade e obediência e se submetia a uma regra de conduta. A vida monástica era rigorosamente estruturada em torno de três atividades: devoção, trabalho e estudo. Havia sete períodos fixos de oração individual e coletiva: matinas, prima (laudes), terça, sexta, noa, vésperas e completas.

A Reforma Protestante, ao relativizar a distinção entre clero e laicato, ao questionar a validade do celibato e ao valorizar a vida normal em família, descartou por completo o monasticismo e a ascese associada ao mesmo. No entanto, como afirma o ditado, jogou fora o bebê junto com a água do banho, pois perdeu esse valioso elemento de uma vida regrada e disciplinada. O temor da rigidez e a busca de total espontaneidade fizeram com que muitos protestantes se tornassem relapsos na sua vida devocional. É verdade que houve movimentos que valorizaram a disciplina espiritual, tais como os pietistas, os morávios e, em especial, os puritanos. Mas hoje, a maior parte dos evangélicos, seja individualmente, seja em família, não cultiva hábitos regulares de oração, meditação e estudo bíblico.

Vivendo numa era de enorme ativismo e dispersão de interesses, os crentes precisam voltar a aprender o valor e o prazer da genuína espiritualidade bíblica. Um autor que fez valiosa reflexão sobre o tema é o quacre Richard J. Foster, cujo livro “Celebração da Disciplina” foi publicado pela primeira vez em português há exatos trinta anos (1983). Nesse clássico, ele aborda doze disciplinas espirituais, divididas em três categorias: interiores (meditação, oração, jejum, estudo), exteriores (simplicidade, solitude, submissão, serviço) e associadas (confissão, adoração, orientação, celebração). Mesmo que não concordemos com todas as ideias de Foster, seu chamado a uma vida de maior profundidade devocional é deveras salutar.

A Escritura e a história demonstram que os homens e mulheres cristãos que maiores contribuições deram à igreja, ao reino de Deus e ao mundo foram pessoas de vida disciplinada, que souberam colocar em primeiro lugar aquilo que é mais importante. Se a igreja contemporânea quiser recuperar a vitalidade de outros tempos, precisa ensinar aos seus fiéis a importância de organização, intencionalidade e alvos concretos não somente nos estudos ou na vida profissional, mas no cultivo da vida interior, na comunhão com Deus e no serviço ao próximo. Como ensina o apóstolo dos gentios (Fp 2.12), todo cristão deve “desenvolver a sua salvação”, e fazer isso com temor e tremor.

publicado na Revista Ultimato, ed. 345, nov-dez 2013.